“E se a cirurgia cosmética fosse algo tão comum que você tivesse que se submeter a ela ou acabaria se tornando um pária?” - Scott Westerfeld – em: Bogus to Bubbly: An Insider’s Guide to the World of Uglies
Começo essa resenha dizendo que demorei um pouco para ter realmente vontade de ler “Feios”, porque, embora tenha me sentido atraída pelo livro, sem nem saber o motivo, nenhuma resenha que li antes havia abordado do que realmente se tratava essa obra fantástica da ficção cientifica distópica moderna, de Scott Westerfeld. Tendo dito isso, espero convencer os leitores mais exigentes com essa minha resenha, pois “Feios” é um livro excelente, do qual mal podia me separar depois que comecei a lê-lo.
E a epígrafe a essa resenha resume apenas a casca da história, pois seu cerne é algo bem mais profundo e, como uma fruta amarga, vamos sentindo o gostinho nada bom dessa tão almejada “beleza perfeita”.
Distópico. Fascinante. Conspirações alucinantes. Um ritmo que vai sempre revelando novas verdades, por trás das mentiras aparentes.
Distopia. Utopia. Certo. Para mim, o próprio conceito de utopia já me parece distópico, mas vamos ver as diferenças e semelhanças.
Para mim, na verdade, toda utopia tende a se tornar distópica, pois a própria aplicação da utopia a leva a tal. No entanto, em teoria, a distopia representa a antítese da utopia, sendo caracterizada pelo regimes totalitários (que no caso de “Feios” é notável apenas depois da impressão inicial de utopia), assim como um controle opressivo sobre a sociedade. Se, ao começar a ler “Feios”, tem-se a impressão de que a história se passa em um futuro utópico, com o desenrolar dos fatos, o que se percebe é justamente o contrário – e “Feios” tem muito em comum com diversas ideias distópicas apresentadas em outros filmes e livros, como “Aeon Flux”, “Equilibrium” e, claro, “Admirável Mundo Novo”, em que a sociedade acaba se mostrando corruptível, as normas “criadas com o propósito de levar a um bem comum” são opressoras e a tecnologia é usada como ferramenta de controle da sociedade desde o nascimento de cada indivíduo.

A história mostra que a maioria das pessoas costuma agir como parte de um rebanho.
Por que eu acho que toda utopia tende a virar algo distópico? Bom, é complicado existir algo perfeito, isso para não dizer que é impossível! Sendo assim, a visão de utopia de alguém ou de um grupo tenderá a virar uma distopia, tudo em nome de “um bem maior”.
Em “Feios”, é ensinado às pessoas, desde que elas nascem, que elas são feias. E que, por diversos motivos que você descobrirá no decorrer da leitura, aos 16 anos, um “admirável mundo novo” será revelado apos a cirurgia em que os(as) adolescentes virarão perfeitos.

A cirurgia “apaga” problemas de pele, cria uma simetria no rosto, entre outros “consertos”. No entanto, o que mais pode haver por trás disso? (Apesar de parecer algo sinistro em si, mesmo que não tivesse nada além disso…)
Os novos perfeitos estavam sempre ocupados demais em se divertir para perceberem pequenas coisas fora do lugar.
Não era surpresa que Peris não tivesse mais a cicatriz. Os dois haviam usado um simples canivete para se cortar. Os médicos usavam instrumentos muito maiores e mais afiados na operação. Raspavam tudo para que uma nova pele crescesse, limpa e perfeita. As antigas marcas deixadas por acidentes, má alimentação e doenças da infância sumiam. Um recomeço.
A princípio, acha-se que a história vai se focar tão somente no desejo de uma feia de se tornar perfeita. Mas não é esse simplório nível de desejos que é abordado em “Feios”. Não tem nada de fútil na história, que mostra tudo o que está por trás dessa falta utopia que é, como era de se esperar, totalmente distópica. Indo atrás de “um desejo tolo” de se tornar perfeita, Tally acaba se deparando com os que fugiram desse mundo idealizado desde pequeno pela maioria das pessoas. E ela acaba descobrindo segredos e ameaças, e somos apresentados também a alguns elementos da tecnologia que Scott Westerfeld criou/adaptou para sua série “Uglies”.
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Nota-se que os “novos perfeitos” parecem viver em uma espécie de alienação, e, a princípio, poderia ser simplesmente pela beleza, não? Bem, com a leitura acabamos por descobrir que tem muito mais por trás disso do que a futilidade resultante da “perfeição”.
Em outras palavras, “Feios” é um livro que realmente pode agradar a gregos e troianos. Fãs de ficção científica ou não. Porque tem o lado sci-fi. Tem o lado político-social. As corporações. Os comandos. Os controladores. Tem aquele clima de Resident Evil às vezes. Mas, ao mesmo tempo, tem o lado humano das personagens muito bem criadas por Scott, que delineia suas personalidades a cada virada de página, fazendo com que se tornem mais reais e cada parágrafo.

Ao chegar ao fim do livro, temos o fechamento de um ciclo e somos preparados para o próximo volume da série, “Perfeitos”, mas é óbvio que não vou contar o que acontece, porque eu seria totalmente uma estraga-prazeres se fizesse isso!
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A prancha (hoverboard). As cenas em que as personagens viajam de prancha são realmente muito legais e bem detalhadas. Cheguei a ver as imagens em um livro sobre a série feito por Scott [Boggles to Bubbly An insider’s guide to the world of Uglies], muito legal mesmo. Porém, mais legal ainda é a seguinte constatação:
Andar de prancha parece divertido. Pode voar como um pássaro. Mas a prática exige muito esforço {Tally}
Ser um pássaro também deve exigir muito esforço. Sabe, esse negócio de bater asas o dia inteiro {Shay}
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Aqui temos um pequeno discurso do porquê de as coisas terem caminhando até o ponto em que estamos na trama de “Feios”:
Todo mundo julgava os outros pela aparência. As pessoas mais altas conseguiam empregos melhores, e o povo votava em certos políticos só porque eles não eram tão feios quanto a maioria. {Shay}
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E por que alguém discordaria de um mundo aparentemente tão “perfeito”? Quando se começa a questionar o sistema, a tendência da maioria dos sistemas (para não dizer… todos) é “engolir” aquele(s) que o(s) desafia(m). E comparando os “dias de hoje” com a história no passado – como é ensinada pelos Perfeitos claro –, é “óbvio” que é “melhor” esperar pelo aniversário de 16 anos e aceitar o presente da “Perfeição” como se fosse uma dádiva e finalmente uma entrada na vida adulta.
Fazer o que as pessoas esperam que você faça é sempre entediante. Não consigo pensar em nada pior do que ser obrigada a me divertir. {Shay}
Era quase impossível acreditar que as pessoas vivessem daquele jeito, queimando árvores para desocupar a terra, consumindo petróleo para gerar calor e energia, rasgando a atmosfera para escapar da cidade que desmoronava, entrando em pânico durante a fuga daquele monte insustentável de metal e pedra.
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Sobre a natureza, outra citação “perfeita”:
A natureza, afinal, não precisava de nenhuma operação para ficar linda. Ela simplesmente era.
Uma das vantagens de ser perfeito é que as pessoas toleram seus hábitos mais irritantes.
Conclusão? Na verdade, ninguém é Perfeito, a Perfeição é uma máscara, e é legal ir desvendando os mistérios enquanto sente a agonia dos personagens, entende seus desejos, suas motivações, assim como em “Vampiros em Nova York” – embora as duas histórias sejam totalmente diferentes –, temos o melhor de Westerfeld e suas marcas registradas: a crítica social, a crítica individual enredados em uma trama excelente de puro entretenimento.
Bem vindos ao futuro! (ou não…)
Resenha: Ana Death Duarte
Imagens: Links nas imagens, além de Brave New World / Olho / plantação de novos braços
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Editora: Galera Record


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