
Apesar da cobertura espetacularizada da mídia sobre o WikiLeaks e Julian Assange, o site e seu criador permanecem uma grande incógnita. Uns dizem que ele é o novo panteão simbólico da liberdade, num mundo cada vez mais dominado por uma elite que continuamente cerceia a liberdade das massas. Outros traçam teorias conspiratórias elaboradas, e afirmam veementemente que ele é um agente da CIA divulgando documentos inúteis somente para dar margem a um endurecimento mundial de leis de liberdade de expressão e privacidade na internet. Outros o colocam no manto de presa a ser caçada mundialmente, que volta e meia o Ocidente veste em alguém, a exemplo de Wilhelm Reich e Timothy Leary, pesquisadores renomados tido como os “homens mais perigosos do seu tempo”. E como era de se esperar, muita gente quer vê-lo morto, pelos mais amplos motivos.
“Eu acho que Assange deve ser assassinado, na verdade. Eu penso que Obama deve colocar um drone [avião de combate não-tripulado] para assassina-lo ou algo assim”, disse Evan Solomon, ex-assessor do primeiro-ministro canadense Stephen Harper. Jeffrey Kuhner, colunista do Washington Times, fez coro: “Devemos tratar o Sr. Assange da mesma forma que outros valiosos alvos terroristas: matá-lo“. Sarah Palin, a musa dos ultra-direitistas republicanos dos EUA, falou ainda mais: “Ele [Julian Assange] é um agente anti-americano com sangue nas mãos. Sua divulgação de documentos classificados revelou a identidade de mais de 100 fontes afegãs para o Taliban. Por que ele não foi perseguido com a mesma urgência que perseguimos a Al Qaeda e os líderes talibãs?”. Em 30 de novembro do ano passado, Bill Kristol, editor do site da revista Weekly Standard, se perguntou “por que ainda não destruímos Assange e seu WikiLeaks, tanto no ciberespaço quanto no meio físico?”.

O Segredo é o pecado original, o crime básico. O propósito da vida é receber, sintetizar e transmitir energia. A fusão comunicativa é o objetivo da vida. O Segredo, bloqueando o sinal, escondendo, cobrindo a luz, é motivado pela vergonha e pelo medo. Como acontece com frequência, a ala direita está meio errada, pelas razões erradas. Eles dizem diretamente: se você não fez nada de errado, não deve ter medo de ser vigiado. Exatamente, mas a lógica segue o caminho inverso também, na medida que as fichas do FBI, os dossiês da CIA, as conversações da Casa Branca deveriam estar, todas, à disposição do público. - Timothy Leary
Provavelmente, Assange não é nem uma coisa nem outra. Velhas classificações oriundas de um filosofia maniqueista ultrapassada – o Dualismo Aristotélico – deveriam ser abandonadas, mas quando os ânimos se inflamam e o retrocesso geopolítico entra em jogo, não é assim que as coisas acontecem, e os discursos acima mostram bem isso. Surgem os velhos rótulos de vilão e herói. Talvez Assange seja apenas um cara que levou a filosofia hacker de “toda a informação e todo o compartilhamento é bom” ao seu limite, e uniu as duas bandeiras no seu veículo de informação sem precedentes na história dos segredos governamentais. Como os fatos são ainda muito novos, desencontrados, com grupos de mídia poderosíssimos empenhados em contar meias-verdades, as informações relacionadas a Assange e seu portal são nebulosas, e exatamente por isso um livro de fôlego como WikiLeaks: A guerra de Julian Assange contra os Segredos de Estado, da Editora Verus, é tão importante. O livro é basicamente uma grande reportagem ligeiramente romanceada, mas mantendo os dois pés na linguagem jornalística clássica. O propósito geral por trás dele é mostrar uma versão dos bastidores “do maior vazamento de informações secretas do governo americano”, além de descrever um aprofundado histórico das personas por trás desses atos. É um relato feito por quem participou diretamente da divulgação midiática das ações mais recentes do WikiLeaks, e por isso mesmo é difícil impor à narrativa o incômodo e espúrio rótulo de imparcial. E ainda não se atendo a uma pretensa e inexistente imparcialidade barata, creio ser esse livro o mais importante e fidedigno relato até o momento sobre a ascenção do Leaks e toda a série de acontecimentos que culminaram na caçada a Assange, e nas múltiplas tentativas de destruição das estruturas físicas que sustentam o portal.

Logicamente que por se tratar de uma reportagem escrita por dois jornalistas do jornal inglês Guardian – David Leigh, editor investigativo do jornal; e Luke Harding, correspondente em Moscou, foram os escritores oficiais -, veículo amplamente comprometido com Assange em sua divulgação, uma série de suspeitas podem aparecer na cabeça do leitor mais paranóico e atento. Sem citar a ampla confiabilidade do jornal, creio que se nos livrarmos de intrincadas teorias da conspiração, teremos uma excelente descrição jornalística dos fatos que culminaram numa das maiores reviravoltas em políticas de segredos de Estado da história civil recente. Estabelecer previamente esse parâmetro de confiabilidade é importante, pois quando se lida com o fator “segredo” (e com alguém dedicado basicamente a revela-los), uma série de jogos de realidade e suspeitas de “quem tá do lado de quem” surgem.

Mas o livro foge de tudo isso de forma muito bem construída. Sua estrutura é linear, assim como uma reportagem, experimentando poucos arroubos de não-linearidade narrativa, o que contribui e muito para uma ampla compreensão do assunto, o que é facilitado pela ausência de experimentações estilísticas tão comuns na literatura atual. O livro começa contando a história de Bradley Manning, 22 anos, soldado americano servindo no Iraque que (supostamente, já que é absolutamente contra a política do WikiLeaks revelar fontes) esteve por trás do envio de uma farta quantidade de material secreto para Assange. Manning é descrito como um rapaz com inteligência acima da média, e um prematuro sentimento subversivo, o que não o impediu de entrar no Exército quando atingiu a idade certa, mas logo levou-o a questionar as ações da corporação. Como analista de inteligência, ele tinha acesso a pequenos escândalos operacionais das tropas dos EUA em ação no país de Saddam Hussein. Civis metralhados, fogo amigo, ataques malsucedidos… tudo. Rapidamente sua subversão veio a tona e ele viu na facilidade de obter cópias desse material uma oportunidade de expor aquelas ações secretas. O sentimento se uniu a sua homossexualidade reprimida devido ao pesado ambiente militar e culminou com o contato feito a Assange e o ainda semi-desconhecido WikiLeaks, que Manning viu como uma possível fonte de divulgação segura.

Em um capítulo inteiro dedicado ao personagem, o livro mostra o passado de Manning em pequenas cidades e o bullying que sofreu devido ao seu sotaque e sua opção sexual, o que me levou a interpretar o ato praticamente suicida de divulgar as informações ao Leaks como uma vontade de se auto-afirmar, aliada a sua conhecida e amplamente abordada subversão. Sua relação com o xis-nove Adrian Lamo – que o entregou ao FBI – é mostrada sem interpretações, apenas se limitando à publicar transcrição de conversas que tiveram. Possíveis entendimentos de certo ou errado são de inteira responsabilidade do leitor. É importante salientar o destino de Manning após suas ações: atualmente ele está preso na base marítima de Quantico, na Virginia, e segundo o inspetor Juan Mendez, da ONU, submetido a torturas e privações de sono. Todos, inclusive altos funcionários do governo americano, são impedidos de falar do caso publicamente. P.J. Crowley, porta-voz da secretária de Estado Hillary Clinton, ousou relatar que Manning não fora declarado culpado de crime algum e que sua prisão era “contraprodutiva e estúpida”, e o resultado foi sua sumária demissão.

O passado de Assange é o tema de um intrincado capítulo seguinte. Desde o início, os traços de personalidade dele mais facilmente captados pelos autores são suas mudanças de humor quase bipolar e uma certa centralização egocêntrica em sua personalidade, que daria origem a inúmeros desentendimentos com seus colaboradores, que o acusam de ser “ditador”, e “quase megalomaníaco”. Seu ego só é comparável às suas habilidades na computação. Tanto que, na idade de 14 anos, o jovem Assange só conseguiu vencer as constantes mudanças de cidade de sua mãe ao ganhar e trabalhar num Commodore 64. Como na maioria dos hackers, sua personalidade fortemente anti-social contribuiu e muito pelo aprimoramento de suas habilidades. Se na escola ele era alvo de bullying, enquanto hacker era brilhante e descrito como “excepcionalmente inteligente”. Ele compunha um grupo hacker do submundo de Melbourne, na Austrália, que entre outras coisas, instalou um worm dos piores no sistema da NASA, já dando mostras que daria trabalho ao governo americano. Não coincidentemente, sua infância e adolescência são bastante similares ao passado de Manning.

Ao invadir e controlar por dois anos um terminal do Pentágono, Assange pode visualizar de perto a mão potente de uma força judicial sobre ele, que terminou condenando-o a pagar uma multa de mais de dois mil dólares. Anos depois, como desempregado, experimentaria pela primeira vez a criação de um serviço gratuito de compartilhamento de informações: o Best Security, site de grande sucesso que dava dicas de segurança. Em 1999, durante uma fase relativamente estável da sua vida, ele tem a idéia da criação do WikiLeaks e registra o domínio – usando o nome do seu pai biológico, John Shipton. Em seu blog – IQ.org – ele cria uma teoria sobre estruturas da informação, e relaciona a existência de segredos do Estado com atrocidades. O texto foi como uma semente em direção ao que se tornaria o Leaks anos depois.
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Quanto mais secreta ou injusta é uma organização, mais os vazamentos estimulam o medo e a paranóia da liderança e do círculo de planejamento. Isso deve resultar na minimização da eficiência dos mecanismos de comunicação interna (um aumento na ‘taxa de sigilo cognitiva’) e no consequente declínio cognitivo em todo o sistema, o que resulta na diminuição da habilidade de se manter no poder. Como sistemas injustos, por natureza, atraem adversários, e em muitos lugares mal exercem o controle, o vazamento de informações os deixa perfeitamente vulneráveis àqueles que procuram substituí-los com formas mais abertas de governança. Apenas a injustiça revelada pode ser enfrentada; para o homem fazer algo inteligente, ele tem que saber o que realmente está acontecendo.

É interessante notar uma teoria que diz respeito ao modo como os primeiros informes secretos chegaram ao WikiLeaks. Segundo evidências encontradas pelos autores, os integrantes do site conheciam hackers que eram pontas de rede do sistema Tor. O Tor é uma rede que cria “nós” [computadores e servidores de voluntários espalhados por diferentes pontos do globo] de sucessivos proxies que escondem informações importantes de pacotes de dados que trafegam na internet, como a origem e o conteúdo dela. Aliado à diversas camadas de criptografia, esse sistema é provavelmente o mais seguro modo de se transmitir informações e navegar pela rede. O problema é que muitos que transmitem acabam por não acrescentar uma camada extra e própria de criptografia, o que deixa muitos dados vulneráveis para os donos dos servidores. Os hackers que permitem que seus computadores sejam “nós” podem ter acesso a terabytes de informações secretas, como emails de embaixadores do Irã, correspondências de mafiosos russos, mensagens do Banco Mundial e planos da Opep… num universo de quase 100 mil emails sigilosos não-protegidos por dia. Ou seja: eles eram os hackers dos hackers, grampeando uma rede secreta e vazando informações dos que não tinham o devido cuidado com elas. Assim, em 2006, quando o site foi lançado, a imensa maioria do que ele publicou foi exclusivamente de dados grampeados.
Não demorou muito para o volume aumentar. Cresceu também em importância, chegando ao primeiro grande vazamento, poucos anos depois: a Chacina Colateral. O hoje famoso vídeo mostra um helicóptero Ah-64 Apache americano massacrando civis agrupados numa esquina. Logo depois, quando uma van vem recolher os corpos, mais um massacre, que dessa vez vitimou duas crianças, num total de 12 cadáveres deixados na rua. Posteriormente foi descoberto que as armas que os atiradores disseram que as vítimas portavam, eram duas câmeras pertencentes a dois jornalistas da Reuters, ambos assassinados pelos atiradores. O vídeo chocou o mundo, e permitiu a Assange aprofundar suas conexões com contatos islandeses – país chamado posteriormente de “Suíça dos bytes” – e suecos – nação que tem leis brandas com relação a permissividade estatal. Entretanto, por diversos motivos, a exibição do vídeo pelo mundo gerou menos comoção e revolta do que esperava o hacker australiano. Ficou aquém da divulgação de fotos de Abu Ghraib por Seymor Hersh, por exemplo, e parte disso se deve ao abrandamento do discurso da própria liderança da Reuters, que mais lamentou o episódio do que o condenou, conforme escreveu o editor-chefe da agência num editorial publicado no próprio Guardian.

A partir daí o livro se põe a destrinchar as relações de Assange com a imprensa, que levariam a bombásticos acordos de revelação dos telegramas do Departamento de Estado meses depois. Logicamente que para chegar nesse estágio de cooperação – que envolveu veículos do porte do The Guardian, da Inglaterra, do The New York Times, dos Estados Unidos, do El País, da Espanha, do Le Monde, da França e da revista Der Spiegel, da Alemanha – houve um trabalho árduo e duras negociações (que às vezes resultavam em longas brigas), relatadas com ares dramáticos pelos jornalistas do The Guardian, que como era de se esperar, se colocaram na posição de veículo fundamental na obtenção do material do Leaks. Primeiro foram os diários de guerra do Afeganistão e Iraque, e logo depois a infinidade de telegramas diplomáticos – tudo saído das cópias que Manning fazia de arquivos secretos, suspeita-se. Logo depois entra na narrativa mais polêmica: o envolvimento de Assange com duas mulheres e a posterior acusação de estupro, que na verdade se denomina “conduta sexual ilegal”, já que o sexo foi consensual, só constituindo delito o não-uso proposital de preservativo. Nesse ponto, o livro se esforça por mostrar o caso de forma mais ampla possível, dedicando quase 20 páginas para descrever o caso minuciosamente, e mais uma vez se preocupando em deixar a interpretação dos fatos com o leitor, embora escape uma óbvia ironia com relação ao modo como o caso foi tratado levianamente na imprensa pelo mundo.

Além do conteúdo “bastidores” do livro, que leva qualquer um – jornalista ou não – a compreender, mesmo que superficialmente, como funciona a dinâmica de grandes reportagens, a narrativa é habilidosa ao destrinchar melhor o conteúdo das divulgações, que em alguns casos, não foram tratados como deveriam. Em diversos momentos o leitor se sente cansado com o esforço monumental que jornalistas empreenderam no processamento e análise de dados mamutescos dos mais “de dois mil livros que seriam formados caso fossem impressos os 250 mil telegramas obtidos”. Os resultados desse tipo de empreendimento analítico foram arrojados, como mostra o mapa interativo da divulgação feita pelo Guardian dos diários do Afeganistão. O caso serve também para ser analisado do ponto de vista do jornalismo profissional de dados, já que não é qualquer um que tem a bagagem informativa para lidar com o processamento de informes tão delicados e pesados. Seria difícil imaginar uma organização que não esteja envolvida profissionalmente com divulgação de informações de interesse público (em outras palavras: jornais, revistas e sites jornalísticos) conseguir ir tão longe nessa análise, e é nessas horas que a importância de mídias alternativas e amadoras é colocada em xeque – não que elas não sejam importantes. O próprio Assange, em certa altura do livro chega a admitir a “dependência do WikiLeaks dos jornais e outros veículos tradicionais de mídia”, que ele por vezes classifica como “perigosamente corruptos”.
Dados antigos da Iraq Body Count fundada pelo Grupo de pesquisa de Oxford
Legenda: Em vermelho, número de oficiais mortos. Em azul, número de civis mortos
Os Diários do Afeganistão são, por si só, um soco no estômago. A descrição fria dos soldados – muitas vezes empenhados em manipular situações ao seu favor, para livrar a própria cara da fúria de seus superiores – de mortes de civis, inclusive de crianças, é de revirar as entranhas dos menos acostumados a ler sobre guerras. Nesse momento surge o fato de que os documentos não devem ser encarados como uma verdade sobre a guerra, mas unicamente a visão dos combatentes dela, que muitas vezes precisa ser distorcida por medo de consequências hierárquicas, o chamado Fator SNAFU. Ajudava na dispersão de informações o fato deles serem obrigados a preencherem esses relatórios sob condições psicológicas adversas e um esgotamento físico compreensível. Mas, ironicamente, esses relatórios americanos tendiam a descrever com mais minúcias as atrocidades e erros cometidos por tropas de outros países da coalizão – especialmente britânicas e polonesas – do que dos próprios soldados, e os Diários do Iraque vão pelo mesmo caminho.

Se no Afeganistão assustam as minúcias com que são relatados verdadeiros massacres contra civis e crianças, no Iraque há um distanciamento global não menos chocante ao ser apresentados números relativos aos assassinatos cometidos pelas tropas americanas. Tommy Franks (à direita na foto acima), general americano que foi o primeiro comandante das operações no Iraque, disse certa vez: “Não fazemos contagem de corpos”, o que foi desmentido veementemente pelos relatórios vazados. Até o Natal de 2010, foram mortos 4.748 soldados das tropas americanas e aliadas em operações no Iraque, embora o governo desses países tenham negado durante anos a existência dessas estatísticas. Já civis mortos por americanos são contados em 66.081, um número considerado baixo por alguns motivos distintos:
a) essa estatística começou a ser levantada em meados de 2004, mais de um ano após a invasão do Iraque, e termina em 2009;
b) os habitantes de locais que receberam ordens de ser evacuados – como a cidade de Falluja – não tiveram seus civis mortos contados;
c) vários civis assassinados entraram para o registro como “combatentes inimigos”, e isso inclui os dois jornalistas da Reuters, vítima da Chacina Colateral. Organizações independentes forneceram números compreensivamente maiores, como é o caso da ONG Iraq Body Count, fundada pelo Grupo de Pesquisa de Oxford, que divulgou o número de 108.501 civis mortos.

Com os diários do Iraque divulgados uma contradição gritante logo salta aos olhos: um aumento vertiginoso de torturas realizadas pelo próprio governo, em número que excedia as da época do ditador Saddam Hussein. Polícia, Exército e milícias: todas estavam empenhadas em batalhas locais e usavam métodos similares aos dos tempos do ditador, o que esvazia a importância da afirmação americana de que suas tropas “salvaram o Iraque das garras e atrocidades da ditadura do país”. Quando soldados e outros subalternos denunciavam essas práticas de autoridades iraquianas a seus superiores, a resposta que ouviam de forma padronizada era um “um assunto deles, não temos nada com isso”. Foi justamente uma dessas negligências que incitou Bradley Manning a divulgar esse tipo de acontecimento trágico através das estruturas do WikiLeaks.

Naturalmente que as autoridades americanas em Washington não ficaram nada satisfeitas com essa divulgação massiva de segredos e uma campanha difamatória teve início de forma absurdamente rápida. O principal ponto das acusações dizia respeito a divulgação de nomes de informantes que trabalhavam para tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. Porém, tal divulgação não existiu, já que por insistência jornalística dos que têm e conhecem a ética que envolve o trabalho com fontes, acabou por convencer Assange de que “nem toda a divulgação é boa”, principalmente quando põem em risco a vida de pessoas inocentes. O primeiro a se manifestar difamando o trabalho de Assange & cia foi o Almirante Mike Mullen (imagem acima), chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas: “A verdade é que ele [Assange] pode ter nas mãos o sangue de um jovem soldado ou de uma família afegã“, afirmou em um pronunciamento oficial do Pentágono quatro dias depois do vazamento. Esse mantra – “sangue nas mãos” – imediatamente passou de especulação à praticamente um fato provado, que deu munição para maios acusações e pedidos de morte, embora nenhuma ligação entre os vazamentos e queimas de arquivo tenham sido provadas até hoje. Na verdade, o inverso foi relatado em segredo pelo próprio alto escalão militar dos EUA. Robert Gates, secretário de Defesa, afirmou durante um discurso em navio de guerra em San Diego que “Não temos informações específicas sobre um afegão que tenha sido assassinado por culpa de revelações do WikiLeaks“. Uma reportagem da CNN, exibida em 17 de outubro de 2010, corrobora a informação, citando um oficial de alta patente da Otan: “Não houve um único caso de afegão que precisasse ser protegido ou transferido por causa do vazamento”. A própria Hillary Clinton, em entrevista dada após seu próprio Departamento ver telegramas de seus funcionários revelados, admitiu que “Assange não tinha uma gota sequer de sangue nas mãos“.

O interessante é que nunca as autoridades se desculpam ou reconhecem que quem tem “sangue nas mãos” são eles, com centenas de milhares de mortes de civis perpetradas por seus soldados. A reação americana, mais uma vez conecta, o vazamento dos diários com as revelações de torturas e outras práticas altamente condenáveis realizadas em Abu Ghraib. Na época das revelações, ”em entrevista à agência de notícias EFE em Madri, onde estava para receber o Prêmio Repórteres do Mundo, do jornal espanhol El Mundo, Seymor Hersh [jornalista da revista New Yorker, e autor das revelações] disse que, depois que as torturas em Abu Ghraib vieram à tona, muitos conservadores partidários do presidente dos EUA, George W. Bush, limitaram-se a compará-las com ‘trotes feitos nas universidades’”.

Outra campanha que pode ser considerada parcialmente difamatória diz repeito a importância pública das informações reveladas pelos telegramas diplomáticos vazados. Foi o que mais se viu nos jornais, parecia que os diplomatas americanos só sabiam falar mal da vida alheia ou similares. Alguns veículos chegaram a dizer que “talvez esse vazamento de fofocas cause algum ressentimento entre nações, isso não me parece bom para a manutenção da paz ou a pseudo-estabilidade em que vivemos”, o que é de todo espúrio e fruto de uma análise apressada e feita por quem nem se deu ao trabalho de ler o que estava escrito em uma fração sequer das revelações. O que se vê descrito pelos autores é um submundo habitado por urubus políticos que não têm qualquer problema em armar falcatruas em benefício próprio.
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Uma série de revelações importantes foi feita pelos telegramas, sempre sob a ótica de funcionários americanos, com a tendência de tirarem dos EUA muito da responsabilidade do que rola no mundo. Uma das mais impactantes diz respeito a uma ordem do Departamento de Estado para que seus funcionários espionassem autoridades de alto escalão da ONU, incluindo a coleta de “informações biométricas detalhadas, números de cartão de crédito, horários de trabalho, histórico de viagens (…) e outras informações biográficas relevantes”. As revelações sobre a Rússia chegaram a ser constrangedoras, e classificaram o país como “um Estado praticamente mafioso (…), onde é cada vez mais difícil distinguir entre atividades legais e crimes”. Subornos e desvios de dinheiro chegavam a quantia exorbitante de 300 bilhões de dólares ao ano no país, ao mesmo tempo em que firma relações com a Itália de Silvio Berlusconi, “quase igualmente mafiosa”. O governo do Sudão se encontra em posição parecida, presidido pelo igualmente criminoso Omar al-Bashir, que segundo os telegramas, “desviou bilhões de dólares dos fundos do país para contas secretas em bancos londrinos”, que prontamente negaram a acusação.

Corporações também aparecem como entidades criminosas, a exemplo da Shell, que infiltrou mercenários no governo nigeriano que “passavam informes regulares de atividades oficiais diretamente para o vice-presidente da empresa”. Ann Pickard, executiva da empresa, disse ao embaixador americano Robin Renee Sanders, que a Shell “podia prever qualquer movimentação dos ministérios nigerianos com confortável antecedência”. Essas ligações, que parecem normais diante de uma leitura desavisada, são levadas ao limite se for considerado o fato que a Nigéria é um país rico em petróleo, porém tem 70% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza. A gigante farmacêutica Pfizer também realizou atividades nada admiráveis na Nigéria. A empresa contratou investigadores particulares para chantagear um promotor que abriu um processo contra a corporação, após testes controversos com produtos químicos envolvendo crianças com meningite.

As consequências dessas revelações também foram cuidadosamente ocultadas da maioria dos noticiários – que geralmente estavam mais preocupados em focar as acusações contra Assange do que o conteúdo do que ele ajudou a revelar. Helmut Metzner, chefe de gabinete do Partido Democrático Liberal alemão foi demitido, após ter sido identificado como informante dos EUA. Gene Cretz, embaixador na Líbia, foi obrigado a se retirar do país após seus comentários sobre Muamar Kadafi serem revelados. Já Reed Curran foi transferido para a longínqua e austera Vladivostok, após o então presidente do Turcomenistão, Saparmurat Niyazov, não ficar nada satisfeito com os comentários o chamando de “pouco inteligente e desconfiado”. Mas, talvez a mais importante consequência das divulgações, tenha sido o desmantelamento do Batalhão de Ações Rápidas, um grupamento militar do Bangladesh treinado por britânicos e descrito como um “batalhão da morte governamental”, responsável direto por “centenas de assassinatos”. Apesar das consequências às vezes adversas para os funcionários diplomáticos dos EUA, a impressão que se tem é que eles cumprem bem o seu dever, traçando perfis aprofundados com embasamento histórico e analisando corretamente dados geopolíticos, o que lembra Stalin, que era descrito por Winston Churchill como “o homem mais bem informado do mundo”, com o porém que a paranóia dele continuamente o fazia expurgar seu corpo de oficiais de informação.

Ao final, Wikileaks, o livro, se revela um documento fundamental para entender o portal de divulgação de informações e sua relação com a imprensa. Até mesmo a rigidez predatória das leis britânicas no trato a imprensa é desnudada, bem como os “dois pesos e duas medidas” adotados pelo governo americano quanto a liberdade de expressão, já que usou inclusive hackers e pressão política para tentar destruir toda a estrutura física do site – medidas que se mostraram ineficazes após uma multidão de anônimos criar diversos leaks-espelho em todas as partes do mundo. Em suas páginas finais, o volume ainda encontra espaço para mostrar integralmente quase 100 páginas dos telegramas mais importantes selecionados pela equipe do jornal, além de assumir um tom profético quando Kadafi reconhece a importância do WikiLeaks nas revoltas que abalaram o regime tunisiano – e que meses depois se espalhariam por outros países do Oriente Médio e o tirariam do poder.
De uma coisa pode-se ter certeza: uma nova era da informação começou.
Resenha por: Voz do Além
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Abaixo assinado a favor do wikileaks.
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