
“A fome era como um leão dentro dela, rasgando suas entranhas.”
Se você ainda não leu Gone ― O Mundo Termina Aqui, leia a resenha dele aqui, claro, isso se o panorama geral abaixo, antes da quebra do artigo, fizer com que você se interesse por essa história.
Introduzindo a situação, essa é uma série de ficção científica. Bem, você pode pensar em sair correndo agora, certo? Se você já não for fã e talvez tenha aquele pavor inicial que muita gente tem quando se fala em ficção científica. Pois bem, o curioso é que muita gente que diz que não gosta de ficção científica, como bem disse a B., tem o 1984 (resenha aqui) como livro de cabeceira. E/ou adoram Jogos Vorazes, um dos distópicos famosos recentes.

Não vou discorrer aqui sobre distopia, se você ainda não sabe o que é, também já falamos sobre isso aqui, na resenha de Feios, do Scott Westerfeld. Pois bem, Gone é uma série distópica. E não é para os fracos de coração. O nível de violência dos adolescentes nessa série é terrível. Eu sofri muito lendo o primeiro volume da série, até hoje as imagens de mãos acimentadas me apavora. E se passou mais de um ano entre a leitura do primeiro e do segundo volume da série. E ainda me recordo das cenas descritas em Gone. É tenso. É forte. E Fome é tudo isso, e um pouco pior. Ou muito, tudo vai depender do seu estômago. Sugiro que não o leia logo depois de almoçar

No entanto, não pensem que todas essas coisas negativas que falei acima são motivos para não ler esses livros. Pelo contrário. Leia-os. Sinta os dramas. Reflita. Em um mundo sem adultos, as “crianças” fazem coisas de assustador à pessoa mais preparada psicologicamente. E, embora muita gente tenha comparado o volume 1 a O Senhor das Moscas, e haja elementos em comum, como a selvageria e o regresso ao estado primitivo do ser, no LGAR eles não estão em nenhuma ilha paradisíaco, como em O Senhor das Moscas, e sim em um lugar aterrorizante e cheio de mutações. Além disso, embora haja outras similaridades sem ser as que já citei, a alegoria do livro está na transformação de um garoto em uma Besta, já que O Senhor das Moscas é uma referência a Beelzebub e, portanto, à demonização do garoto.

A série Gone não pretende entrar em discussões alegoricamente religiosas. Pelo menos não nesses dois primeiros livros. Embora algumas pessoas se questionem sobre a existência de um Deus, etc., algo normal em uma situação apocalíptica como essa deles, em que os adultos simplesmente pufaram, os focos são outros. Portanto, que fique claro isso: a série Gone não é uma versão e nem uma cópia de O Senhor das Moscas.
A seguir, as informações conterão spoilers sobre o livro 1, portanto, se você não o leu ainda, como eu disse lá em cima, veja a resenha dele aqui em vez de seguir em frente. =)
Essa frase me lembrou muito de X-men: Primeira Classe (além do clima filhos do átomo):
“Talvez a solidão não fosse tão ruim quanto ser ridicularizado.”
A história começa a ser contada, nesse segundo livro, 3 meses depois dos acontecimentos de Gone – O mundo termina aqui. Se em Gone o caos havia começado a ser estabelecido, depois de lutas pela liderança, brigas entre os líderes de cada lado, etc., em Fome eles começam a, como diz o nome do livro, sentir Fome. Meses depois do evento que criou o LGAR, a comida, que foi desperdiçada por muitos logo de cara, começa a virar artigo de luxo. Além disso, novos personagens começam a descobrir seus poderes, há diversas mortes, horrores inomináveis, divisão em grupos tão violentos quanto o grupinho de Caine, e alguns ainda piores.

“O sol parecia um maçarico. Quente demais para esse início de dia.”
“Seu café da manhã apressado tinha sido uma lata de couve em conserva. Era incrível o que as pessoas conseguiam comer quando tinham fome o bastante.”

Parece não haver nenhum momento de felicidade em Fome. Até mesmo a criação de uma “balada”, no antigo McDonald’s, é apenas uma fuga da realidade terrível em que todos se encontram. Michael Grant nos brinda com mais terrores e ações pavorosas das pessoas. Quando você pensa que tudo de pior já foi feito, eles conseguem ser ainda piores.

“Crianças pequenas bebendo rum. Ele tinha visto. Bebendo vodca. Faziam caretas diante do gosto horrível e da queimação, depois tomavam outro gole.”
“Gente faminta não perde muito tempo com perguntas.”

Já me disseram que era bom eu não gostar de nenhum personagem dessa série. Porque o autor tem o dom de matá-los de formas horríveis, e/ou de fazer com que eles sofram coisas piores do que ser mortos. Sim, há muitas coisas piores do que morrer e, em Fome, vemos exemplos de algumas delas. Mas Michael Grant cria seus personagens com tanta personalidade, garra, e outras características tão impressionantes que não há como não sentir por eles. Pelo menos, pela maioria deles. O autor é ótimo e consegue criar uma trama cheia de personagens sem que eles fiquem apagados. É muito bom isso, porque livros com personagens demais costumam ser cansativos, especialmente se o autor não dá a devida profundidade a eles. Não é o caso aqui, ainda bem.

“A minúscula porção humana dele parecia a mais assustadora. Como se alguém tivesse cortado a carne de uma pessoa viva e colado numa estátua de pedra.”
“O valentão que adorava nome de monstro agora era monstro de fato, e queria ser chamado de Charles.”
O bom de lermos esse tipo de livro é que as coisas são tão chocantes que vai ser difícil cometermos esses mesmos erros, não é?
Sim e não. Porque, embora saibamos, muitas vezes, o que é o certo, em situações de extremo desespero, o ser humano realmente volta a seu estado primal, e comete atrocidades que seriam consideradas normais em uma selva. Porém, algumas coisas que os humanos fazem nesse livro são tão horrendas que nenhum animal predador provavelmente fez ou faria. O ser humano, por ser dotado de capacidade intelectual, pode chegar a níveis inimagináveis (ou não) de crueldade.
É o retrato do horror o que vemos em Fome, porém, ao mesmo tempo, é o delineamento de uma nova estrutura social e mercantil que também surgem nesse livro 2 da série. Gostei muito dessa linha de desenvolvimento.

“Agora os únicos sons vinham das minhocas. As centenas de bocas pareciam fazer um som único, molhado, como uma boca enorme mastigando. (…) A minhoca tinha uma boca igual à de um tubarão.”
Tremors feelings, não? Além disso, Sam já está cansado de ser o líder. E, às vezes, ele meio que age como déspota nesse livro, o que me irritou um pouco, mas creio que seja proposital do autor. Eu não gostaria de estar na posição dele, mas, ao mesmo tempo, parece que quem não está na liderança vira vítima. E quem está, também. É o horror, o caos… e tudo isso permeado pela Fome. Terrivel. Que faz com que você coma insetos vivos. O cachorro do vizinho. Qualquer. Coisa!
“Um garoto de 12 anos, morto, estava queimando, e minha boca começou a se encher de água.”

“Agora havia crianças comendo comida de cachorro. E havia cães na rua que eram apenas pele e ossos, revirando o lixo ao lado de crianças que tentavam pegar de volta restos que haviam jogado fora semanas antes.”
A alternância de cena, ou seja, o relato de algo que está acontece com determinada pessoa ou grupo, interrupção e passagem para outro, tudo isso torna o livro dinâmico, e facilita a leitura ao mesmo tempo em que aumenta a agonia. Embora no começo, eu diria que no primeiro terço do livro, as ações sejam menos rápidas, depois que todo o Caos se estabelece, tudo começa a desmoronar ao mesmo tempo, amizades, espaços, imaginem o Caos em todos os sentidos. Pois é. É trágico assim.
“Em metade do prédio, o encanamento não funcionava, com os vários sanitários inundados e fedendo.”
“Você ainda tem sonhos em que machuca animais, Drake?
Não, doutor. Sonho em machucar o senhor.”“Mas o braço nunca ficava totalmente parado, de modo que sempre parecia uma jiboia rosa e cinza espremendo-o, sempre parecia que Drake era a presa da serpente.”

Somos apresentados também, em Fome, ao ser que surge no final do livro anterior. E é algo terrível, tão terrível, e que tem de ser sobrepujado. E não vou nem dar uma dica a vocês de se isso acontece ou não. Porque o legal dessa série é você ir lendo sem saber muita coisa.
Eu comecei a ler o primeiro livro sem saber quase nada… então não vou dar mais detalhes a vocês. Só digo mais uma coisa, além de que o livro é excelente e que, mesmo sendo enorme, você vai ser ver lendo um capítulo atrás do outro, sem querer larga-lo, especialmente depois do primeiro terço. E o final? Bem, um arco é bem encerrado… mas tem uma coisa, uma grande maldade do autor, rs, que vai me fazer ansiar pelo próximo “capítulo” dessa saga logo!
“Fome” é um livro tenso, é forte, é triste, dolorido, visceral. E vale cada minuto de sua leitura!
Nota: 5 latas de couve em conserva

Resenha: Ana Death Duarte
Edição de imagens: Alonso Lizzard (links para os artistas nas imagens. Desenho da cabeça de porco aqui)
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