Resenha do livro: Um Trabalho Sujo – Christopher Moore

Em primeiro lugar, devo dizer que a capa desse livro é ma-ra-vi-lho-sa! A ilustração é linda, e, como vocês poderão ver nas fotos abaixo, a parte interna da capa dele também é roxa (além de o título, Um trabalho sujo, ser em relevo e com verniz). E como se não bastasse essa coisa linda toda… a capa tem textura, bem similar à de Insaciável.

E, como eu sempre me pergunto, quando vejo um livro com uma capa linda demais: será que o livro é bom?

Esse livro não é bom, a história dele é excelente, isso sim! A criatividade do autor, mesclada com uma boa dose de humor negro, em um clima de mitopunk (vide a resenha de Deuses Americanos, do Neil Gaiman, sobre mitopunk), deixou a obra algo simplesmente peculiar, interessante, engraçado em alguns pontos, e dramático em outros.

A mitologia criada/adaptada pelo autor é muito interessante ― temos os “coletores de almas”, tipo os Reapers, ceifadores, como naquela série Dead Like Me (alguém se lembra dela?) Mas as coisas não param por aí. Desde cães infernais, referências ao Livro tibetano dos mortos, deuses da Morte que se esgueiram pela cidade… muita coisa legal em uma mescla de mitopunk com dramas pessoais e muitas situações engraçadíssimas – para quem curte humor negro, lógico ^^

Quer saber mais detalhes sobre a trama e o que achei das situações do livro, do enredo, enfim, de tudo de modo geral? É só continuar a ler a resenha =]

Antes de continuar, vamos mostrar alguns detalhes do capricho da edição:

Detalhe em close do relevo do título

Acabamento da contra-capa e orelha

Logo no primeiro capítulo, somos apresentados a Charlie, cuja filha acaba de nascer e cuja esposa está prestes a morrer – só que ele não sabe. Ainda. E ele acaba “vendo” um Coletor de Almas que vai lá atrás da alma de sua esposa, algo que, a princípio, não deveria ter acontecido.

Nos primeiros capítulos acompanhamos o sofrimento de Charlie e de sua família por causa da perda da esposa e mãe da filha dele, e depois vamos sendo apresentados àquilo que ele mesmo se tornou – só que demora um pouco a descobrir: ele mesmo se tornou um dos Coletores de Almas. Uma das personagens mais cômicas é a funcionaria gótica de sua loja ― ele tem uma lojinha de itens usados diversos, e as coisas em sua loja começam a brilhar e… em determinado momento, depois de muita confusão, ele acaba descobrindo que tais objetos são receptáculos de almas.

“Lily, a jovem gótica de cabelos acaju que trabalhava para Charlie três tardes por semana, costumava dizer que o fato de não conseguirem encontrar nada era uma prova da Teoria do Caos em funcionamento, depois resmungava qualquer coisa e saía em direção ao beco para fumar cigarros de cravo e olhar para o Abismo.”

“Nos últimos tempos, depois que descobrira as Fleurs du Mal de Baudelaire numa pilha de livros usados na salinha dos fundos, Lily pontuava o que dizia com frases em francês. “O francês expressa melhor a profunda noirness da minha existência”, dizia ela.

É interessante essa abordagem do autor. As pessoas amam tanto objetos que suas almas acabam indo parar neles. E há pessoas sem alma caminhando pela Terra que precisam ser “donas” dessas almas. Uma das coisas mais terrivelmente assustadores foi que a alma de uma mulher estava.. em seus implantes de silicone! O.o

Moore faz piada com tudo e com todos, e eu não vi as tiradinhas como misóginas e nem como racistas, já que ele não poupa ninguém. Há, inclusive, um quiz no final do livro para você saber se é um macho alfa ou beta heheh, que é uma das contestantes engraçadas do livro. Ele faz vários comentários sobre atitudes dos estereótipos de macho alfa/beta. Porém, por baixo dessa camada engraçada, sarcástica e irônica, os dramas dos personagens são bem desenvolvidos, até os personagens secundários são bem-feitos! – e eu não consegui não pensar no Coletor de Almas Mr. Mint como o Papa Midnite de Hellblazer. Algumas imagens ficam tão cravadas na nossa mente que a gente acaba colocando a cara de determinados desenhos/atores em alguns personagens nos livros. É só comigo que isso é assim? Comentem que quero saber hehe ;p

“No mundo dos condimentos, mostarda escura é o equivalente a saltar de paraquedas ― algo bacana para pilotos de carros de corrida e serial killers.”

 “Dores recentes são cortantes, rasgam nervos e nos desconectam da realidade, mas há compaixão em uma lâmina afiada.”

Ri muito com essa referencia abaixo:

“Esse mês, ela está estudando os existencialistas. Pediu para tirar um dia de folga, na semana passada, para matar um árabe na praia como exercício.” 

Então, é bem comentário de que quem não manja, não é? Qual é o erro nessa frase? (É lógico que o personagem que fala isso está tentando fazer gracinha, zoando a cara da Lily, e comete o GRANDE erro de chamar Camus de Existencialista! Quando a escola dele era Absurdista! Hehe E o livro a que ele faz referência… vocês sabem/lembram qual é? Fizemos resenha dele aqui.

Aliás, tem todo um lado da trama que é bem realista, ao passo que várias situações são tão absurdas… embora se encaixem perfeitamente na trama, lógico, o absurdo é uma constante em Um trabalho sujo, mas no bom sentido. No sentido de que o autor conseguiu encaixar cenas e situações absurdas e torá-las verossímeis! =] E eu já disse que a mitologia é incrível? (imagem abaixo: Morrigan)

“― No me provoque! ― disse a Morte com cabeça de touro.
Ergueu-se e saiu andando pelo cano, à frente das outras Mortes, as Morrigan, na direção do centro financeiro. Era lá que estava enterrado o navio da época da Corrida de Ouro onde moravam.”

Há algumas outras referências culturais/pops, mas não vou ficar estragando tudo falando de todas aqui, só vou dizer também que, em determinado momento, Charlie se sente como o Cavaleiro Negro de Monty Python ^^

E a Morte, a Morte com M maiúsculo, como eles dizem, onde ela está? E quais são os papéis desempenhados pelos Deuses da Morte? E é aí que entra o lance que falei do Mitopunk ― é tudo bem explicadinho, e acaba caindo em um ponto já abordado por Neil Gaiman em Deuses Americanos: os deuses em que as pessoas deixaram de acreditar acabam ficando decadentes, e viram meras sombras do que já foram… tornando-se algo terrível, às vezes… e é claro que eles não deixam de ser criação humana, afinal todos os deuses foram criados pelos seres humanos e depois, muitos foram esquecidos por eles. E vários foram demonizados também. Eu curti a forma como Moore colocou os deuses da Morte nesse livro ― e é bem interessante que os deuses acabem representando bem suas épocas, deuses guerreiros em épocas em que as pessoas viviam em guerra, bem, já falamos bastante esse ano sobre deuses, como vocês não podem deixar de ver também na nossa resenha de Ragnarök.

Ah, e não posso deixar de mencionar momentos altamente poéticos, como mostra essa citação abaixo ^^

“Era um dia quente de outubro, a luz sobre a cidade tinha a suavidade do outono, a névoa de verão que emergia todas as manhãs da baía acabara de avançar insistentemente sobre a cidade, e soprava apenas uma brisa muito leve, o que faziam com que os poucos veleiros que pontilhavam a baía dessem a impressa de estar posando para um pintor impressionista.”

E é lógico que não posso deixar de citar também o manual que os Coletores de Almas recebem, hehe, O Fantástico Grande Livro da Morte. E a forma como o nomes começam a surgir na agenda de Charlie ― lógico que aquilo foi uma das coisas mais legais do livro e não vou entrar em detalhes para deixar vocês com vontade de lerem o livro também (minha vontade começou quando anunciaram a capa desse livro! E é ótimo e então, altamente o  recomendo!)

Bom tamanho de fonte boa para leitura

Enfim, vocês já devem estar se perguntando: mas se há vários outros livros que você citou que já abordaram esse tema, o que esse livro tem de original e por que eu devo ocupar meu tempo com ele?

A resposta é simples: porque o autor usou temas muito interessantes com maestria, em uma ótima mistura de humor, sarcasmo, drama, transformando por vezes o grotesco em belo e o belo em grotesco, e a trama é toda bem encaixadinha, tudo é muito bem explicado ― sem excesso de didatismo ― que o livro é uma excelente leitura. E a criatividade e originalidade está na forma como ele abordou os temas e as mensagens subliminares do livro, por trás da casca inicial de tragicomédia. Ahhhhhh… e o final? O final é belo! Com uns toques melancólicos, quase góticos… mas é muito belo (pontuado com piadas, rs, mas ainda é belo hehe). Um livro excelente para vários tipos de leitores, mas talvez tenha um apelo especial aos fãs de mitopunk, mitologia em geral e em histórias (muito boas!) sobre a Morte, claro ^^

Resenha: Ana Death Duarte
Fotos do livro e edição de imagens: Alonso Lizzard 

Nota: 5 hellhounds! =]

Imagem que usei nos hellhounds aqui

Curtiu? Nesse link você encontra o livro com descontos de até 11% 

Editora:

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  • http://twitter.com/reginaumezaki regina umezaki

    Oh, que CAPA LINDA! Adorei os detalhes. Vou ler assim que possível! Pode demorar um pouco, mas com certeza terei-o em minhas mãos um dia *-*

    Mitologia, humor negro, CEIFADORES! YEY. É tudo o que há de mais adorável na literatura, num só livro! Adorei.

    Enfim, uma resenha muito boa, e dessa vez as imagens acompanhando se superaram! Encontraram ilustrações simplesmente fantásticas.

    Está listado para leitura.

  • Ana Paula Lima

    Ana mais uma vez PARABÉNS!
    Que resenha MARAVILHOSA !!!!!!

    Tudo nesse livro parece ótimo. Da capa ao enredo.
    Que misto “arretado”!!!! Dramas, “Coletores de almas”, tiradas engraçadíssimas, mitos…UI!!! Quero esse livro!!!!!
    Simplesmente A-M-E-I a dica.
    Valeu!
    @aplalima

    • http://twitter.com/anadeathduarte ツ Ana Death Duarte ツ

      Obrigada, faço as resenhas com carinho sobre meus livros queridos =D

  • Luiz Paulo Aires

    Verdade mesmo, quando vejo um livro com capa bonita fico pensando se ele é bom também. Não adianta, eu julgo livro pela capa sim! Morri com a mulher que tinha a alma no implante de silicone HAUSUHAHUASHU. Adoro humor negro, coisas que envolvam morte e esse livro entrou na minha lista fácil. Adorei :D

  • http://www.cascoliterario.com/ Tassi – Casco Literário

    Ana, você me ganhou quando eu li “Dead Like Me”. Eu era uma pessoa tão solitária no colégio, a única que via.. E ainda me chamavam de entranha porque (entre outras coisas) eu vi um seriado sobre morte i.i (sadviolin.com)
    ENFIM!
    Eu sou completamente apaixonada na capa desse livro e, sinceramente, não sei porque não o comprei até hoje o.o
    O único problema de ler uma resenha dessas é que eu fico com vontade de ler outros 50 livros só pelos hiperlinks dos posts de resenha. Deuses Americanos já está a caminho, só falta Ragnarök xD

    • http://twitter.com/anadeathduarte ツ Ana Death Duarte ツ

      Ahahahaha Bem, eu sou a Morte, neh? Ganhei esse apelido com 18 anos pq 1. eu me parecia fisicamente com ela, rs (a Death do Gaiman, claro xD) o que pra mim era elogio! 2. Eu vi todos os epis de Dead Like Me! Adoro! Pena que acabou e- #sad
      HAHAHAH Vc tb é dessas que fica com vontade de ler os livros citados nas resenhas dos livros da resenha, rsrsrs (fui redundante, mas, bem ;p)
      Leia D.A. e DEPOIS leia Um trabalho sujo, acho que vc vai curtir o segundo mais ainda se ler depois hehe
      xoxo

  • tati.tais1995

    Adoreei a resenha, muito bem escrita, explorou bastante o livro sem dar spoiler, o que é difícil de fazer. Parabéns!! Quanto ao livro definitivamente deixou MUITA vontade de ler!

  • Anonymous

    Li o livro e gostei bastante, realmente nos faz rolar de rir em algumas partes. Meus personagens favoritos são um spoiler rs São os que aparecem no final por conta da moça do templo budista ( espero que quem não leu tenha ficado com cara de quem não entendeu e você tenha sacado rs ). Achei somente que muitas pessoas podem se incomodar com o fato do autor transitar entre vários gêneros e ainda relacionar todos com o humor. Se o leitor não se incomoda, então é só cair dentro. Algumas piadas são de mal gosto, mas, como você mesma disse, o autor não tem escrúpulos, chegaria a detonar a si mesmo no romance caso fosse um personagem hahaha Sobre o mitopunk, não conhecia isso. Achei bem legal, vou dar uma pesquisada.

    Abraços,
    Victor

  • http://twitter.com/joelmaalves Joelma Alves Lúcio

    Oi, Ana!
    Olha eu aqui de novo!
    Você disse que tô sumida e fiquei com peso na consciência… rs
    Passei aqui nessa semana mas nem comentei. É que eu tô tentando manter um blog, e não consigo me organizar direito, demoro horas pra escrever os posts e não sobra tempo! rsrs
    Mas estou tentando me organizar e ainda tenho que participar da megapromo…
    Quanto a resenha, tá ótima.
    Você gostou tanto da capa, mas p falar a verdade eu não achei tããão legal, ainda mais pelo que li na resenha, não parece ter muito a ver… Mas pode ser só impressão, claro. Mas posso dizer que o livro não me atrairia pela capa, mas sim pela sua ótima resenha.
    Eu não posso nem pensar em comprar mais livros (estou em re-hab usando o mantra que você passou no Fotos e Livros), mas adorei a história e entendi pq vc gostou tanto, afinal você é a Morte. Adorei que vc explicou o pq desse apelido tbm…
    Quanto a sua pergunta na resenha, eu sempre penso em alguns personagens dos livros com a aparência de pessoas reais/desenhos/atores. No livro A Estrada da Noite pensei no personagem principal cm o meu professor de Português da 5ª Série.. rs

    =*

    P.S. Nem preciso falar da seleção de imagens, né! Simplismente adooooro e me inspiro em vcs!

  • http://twitter.com/BrunoVarela Bruno Varela Chaves

    Eu tinha gostado desse livro meses atrás quando a Ana me falou dele, e depois da resenha eu o quero imediatamente =D Só assisti a uns episódios de Dead Like Me, mas me lembrou também o falecido seriado Reaper, que era muito engraçado =D. Enfim, adorei a resenha e pretendo comprar esse livro logo, oh essa minha lista só aumenta.

  • http://twitter.com/sterlidiane Lidiane

    Muito legal a ideia da história. Interessante apesar de ser como disse tema recorrente a abordagem, aparentemente foi boa o que é o mais importante.
    Esse jeito de fazer criticas e literatura é muito bom, nos faz refletir. Me surpreendi com o fato das almas ficarem presas a objeto e, principalmente, com o fato de pessoas andarem sem almas.
    Adicionei a minha lista de livros.
    Muito bacana. 

  • http://twitter.com/Saaneflores Saaneflores

    Achei o tema abordado pelo livro bem legal, e considerando o que você mencionou sobre o livro parece que ele reveza entre algo pesado e leve através deste humor negro. 
    Essa do implante de silicone foi muito boa, mas ao mesmo tempo muito triste, muito vazio… Uma crítica que cabe bem nos dias de hoje. 
    Como sempre vc conseguiu despertar o meu interesse, vou buscar saber mais sobre este livro. 
    Ah! Não acontece só com vc, eu coloco a cara de outros personagens nos  dos livros, se eles tiverem uma personalidade parecida, mas isso acontece geralmente quando eu gosto bastante de um personagem. rs  

  • http://twitter.com/ClaudiaCharao Claudia Charão

    :) awn lindão ele.

    Eu gostava de Dead like me o/ e adoro humor negro como você bem sabe.

    foi que a alma de uma mulher estava.. em seus implantes de silicone! O.o

    whaaaat? isso é bizarro

    puxa esses dias estava discutindo com a minha mãe sobre macho alfa ou beta, o tema foi para a minha galeria de teorias haha

    No meu caso depende, só quando o ator/desenho marcou muito mesmo, se o autor cria uma personalidade muito diferente daí não ligo a imagem conhecida.

    Ah eu quero ler, dependendo da abordagem gosto de deuses e da mistura de humor e drama.  

  • Julia

    Eu diiiiiiiiiiiiiisse, agora só visito esse site uma vez por mês ou bimestre, pois ele me leva a falencia!!

    E eu tambem faço isso, coloco a cara de um personagem em outro, principalmente se na hora eu estiver com um pouco de preguicinha de criar.

    Eu colei a cara do Sirius Black (não a do filme que pra mim foi frustante, mas a primeira que imaginei quando li) no Robert Langdon de Anjos e Demonios e Codigo da Vinci, e nunca mais saiu. Imagine só minha frustração ao ver o tom hanks la, com aquele cabelinho. (Nao, nao achei o Codigo da Vinci tudo isso que falam dele, mas serve muito bem pra passar o tempo)