
Em primeiro lugar, devo dizer que a capa desse livro é ma-ra-vi-lho-sa! A ilustração é linda, e, como vocês poderão ver nas fotos abaixo, a parte interna da capa dele também é roxa (além de o título, Um trabalho sujo, ser em relevo e com verniz). E como se não bastasse essa coisa linda toda… a capa tem textura, bem similar à de Insaciável.
E, como eu sempre me pergunto, quando vejo um livro com uma capa linda demais: será que o livro é bom?
Esse livro não é bom, a história dele é excelente, isso sim! A criatividade do autor, mesclada com uma boa dose de humor negro, em um clima de mitopunk (vide a resenha de Deuses Americanos, do Neil Gaiman, sobre mitopunk), deixou a obra algo simplesmente peculiar, interessante, engraçado em alguns pontos, e dramático em outros.
A mitologia criada/adaptada pelo autor é muito interessante ― temos os “coletores de almas”, tipo os Reapers, ceifadores, como naquela série Dead Like Me (alguém se lembra dela?) Mas as coisas não param por aí. Desde cães infernais, referências ao Livro tibetano dos mortos, deuses da Morte que se esgueiram pela cidade… muita coisa legal em uma mescla de mitopunk com dramas pessoais e muitas situações engraçadíssimas – para quem curte humor negro, lógico ^^
Quer saber mais detalhes sobre a trama e o que achei das situações do livro, do enredo, enfim, de tudo de modo geral? É só continuar a ler a resenha =]
Antes de continuar, vamos mostrar alguns detalhes do capricho da edição:

Detalhe em close do relevo do título

Acabamento da contra-capa e orelha
Logo no primeiro capítulo, somos apresentados a Charlie, cuja filha acaba de nascer e cuja esposa está prestes a morrer – só que ele não sabe. Ainda. E ele acaba “vendo” um Coletor de Almas que vai lá atrás da alma de sua esposa, algo que, a princípio, não deveria ter acontecido.

Nos primeiros capítulos acompanhamos o sofrimento de Charlie e de sua família por causa da perda da esposa e mãe da filha dele, e depois vamos sendo apresentados àquilo que ele mesmo se tornou – só que demora um pouco a descobrir: ele mesmo se tornou um dos Coletores de Almas. Uma das personagens mais cômicas é a funcionaria gótica de sua loja ― ele tem uma lojinha de itens usados diversos, e as coisas em sua loja começam a brilhar e… em determinado momento, depois de muita confusão, ele acaba descobrindo que tais objetos são receptáculos de almas.

“Lily, a jovem gótica de cabelos acaju que trabalhava para Charlie três tardes por semana, costumava dizer que o fato de não conseguirem encontrar nada era uma prova da Teoria do Caos em funcionamento, depois resmungava qualquer coisa e saía em direção ao beco para fumar cigarros de cravo e olhar para o Abismo.”
“Nos últimos tempos, depois que descobrira as Fleurs du Mal de Baudelaire numa pilha de livros usados na salinha dos fundos, Lily pontuava o que dizia com frases em francês. “O francês expressa melhor a profunda noirness da minha existência”, dizia ela.

É interessante essa abordagem do autor. As pessoas amam tanto objetos que suas almas acabam indo parar neles. E há pessoas sem alma caminhando pela Terra que precisam ser “donas” dessas almas. Uma das coisas mais terrivelmente assustadores foi que a alma de uma mulher estava.. em seus implantes de silicone! O.o
Moore faz piada com tudo e com todos, e eu não vi as tiradinhas como misóginas e nem como racistas, já que ele não poupa ninguém. Há, inclusive, um quiz no final do livro para você saber se é um macho alfa ou beta heheh, que é uma das contestantes engraçadas do livro. Ele faz vários comentários sobre atitudes dos estereótipos de macho alfa/beta. Porém, por baixo dessa camada engraçada, sarcástica e irônica, os dramas dos personagens são bem desenvolvidos, até os personagens secundários são bem-feitos! – e eu não consegui não pensar no Coletor de Almas Mr. Mint como o Papa Midnite de Hellblazer. Algumas imagens ficam tão cravadas na nossa mente que a gente acaba colocando a cara de determinados desenhos/atores em alguns personagens nos livros. É só comigo que isso é assim? Comentem que quero saber hehe ;p
“No mundo dos condimentos, mostarda escura é o equivalente a saltar de paraquedas ― algo bacana para pilotos de carros de corrida e serial killers.”
“Dores recentes são cortantes, rasgam nervos e nos desconectam da realidade, mas há compaixão em uma lâmina afiada.”
Ri muito com essa referencia abaixo:

“Esse mês, ela está estudando os existencialistas. Pediu para tirar um dia de folga, na semana passada, para matar um árabe na praia como exercício.”
Então, é bem comentário de que quem não manja, não é? Qual é o erro nessa frase? (É lógico que o personagem que fala isso está tentando fazer gracinha, zoando a cara da Lily, e comete o GRANDE erro de chamar Camus de Existencialista! Quando a escola dele era Absurdista! Hehe E o livro a que ele faz referência… vocês sabem/lembram qual é? Fizemos resenha dele aqui.
Aliás, tem todo um lado da trama que é bem realista, ao passo que várias situações são tão absurdas… embora se encaixem perfeitamente na trama, lógico, o absurdo é uma constante em Um trabalho sujo, mas no bom sentido. No sentido de que o autor conseguiu encaixar cenas e situações absurdas e torá-las verossímeis! =] E eu já disse que a mitologia é incrível? (imagem abaixo: Morrigan)
“― No me provoque! ― disse a Morte com cabeça de touro.
Ergueu-se e saiu andando pelo cano, à frente das outras Mortes, as Morrigan, na direção do centro financeiro. Era lá que estava enterrado o navio da época da Corrida de Ouro onde moravam.”
Há algumas outras referências culturais/pops, mas não vou ficar estragando tudo falando de todas aqui, só vou dizer também que, em determinado momento, Charlie se sente como o Cavaleiro Negro de Monty Python ^^

E a Morte, a Morte com M maiúsculo, como eles dizem, onde ela está? E quais são os papéis desempenhados pelos Deuses da Morte? E é aí que entra o lance que falei do Mitopunk ― é tudo bem explicadinho, e acaba caindo em um ponto já abordado por Neil Gaiman em Deuses Americanos: os deuses em que as pessoas deixaram de acreditar acabam ficando decadentes, e viram meras sombras do que já foram… tornando-se algo terrível, às vezes… e é claro que eles não deixam de ser criação humana, afinal todos os deuses foram criados pelos seres humanos e depois, muitos foram esquecidos por eles. E vários foram demonizados também. Eu curti a forma como Moore colocou os deuses da Morte nesse livro ― e é bem interessante que os deuses acabem representando bem suas épocas, deuses guerreiros em épocas em que as pessoas viviam em guerra, bem, já falamos bastante esse ano sobre deuses, como vocês não podem deixar de ver também na nossa resenha de Ragnarök.

Ah, e não posso deixar de mencionar momentos altamente poéticos, como mostra essa citação abaixo ^^
“Era um dia quente de outubro, a luz sobre a cidade tinha a suavidade do outono, a névoa de verão que emergia todas as manhãs da baía acabara de avançar insistentemente sobre a cidade, e soprava apenas uma brisa muito leve, o que faziam com que os poucos veleiros que pontilhavam a baía dessem a impressa de estar posando para um pintor impressionista.”
E é lógico que não posso deixar de citar também o manual que os Coletores de Almas recebem, hehe, O Fantástico Grande Livro da Morte. E a forma como o nomes começam a surgir na agenda de Charlie ― lógico que aquilo foi uma das coisas mais legais do livro e não vou entrar em detalhes para deixar vocês com vontade de lerem o livro também (minha vontade começou quando anunciaram a capa desse livro! E é ótimo e então, altamente o recomendo!)

Bom tamanho de fonte boa para leitura
Enfim, vocês já devem estar se perguntando: mas se há vários outros livros que você citou que já abordaram esse tema, o que esse livro tem de original e por que eu devo ocupar meu tempo com ele?
A resposta é simples: porque o autor usou temas muito interessantes com maestria, em uma ótima mistura de humor, sarcasmo, drama, transformando por vezes o grotesco em belo e o belo em grotesco, e a trama é toda bem encaixadinha, tudo é muito bem explicado ― sem excesso de didatismo ― que o livro é uma excelente leitura. E a criatividade e originalidade está na forma como ele abordou os temas e as mensagens subliminares do livro, por trás da casca inicial de tragicomédia. Ahhhhhh… e o final? O final é belo! Com uns toques melancólicos, quase góticos… mas é muito belo (pontuado com piadas, rs, mas ainda é belo hehe). Um livro excelente para vários tipos de leitores, mas talvez tenha um apelo especial aos fãs de mitopunk, mitologia em geral e em histórias (muito boas!) sobre a Morte, claro ^^
Resenha: Ana Death Duarte
Fotos do livro e edição de imagens: Alonso Lizzard
Nota: 5 hellhounds! =]
Imagem que usei nos hellhounds aqui
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