Tive meu primeiro contato com Tintim nas tardes da TV. Assistia à animação sem perder nenhum episódio. Cheguei a ver em torno de 3 vezes cada um. Demorei um tempo até descobrir os quadrinhos e começar a lê-los um por um.
Todos têm algum motivo em especial para gostar da criação de Hergé. Tintim é carismático, protetor, um bom amigo. É um jovem repórter que não tem medo de ir atrás dos bandidos e entra de cabeça em conspirações diversas, como tráfico de drogas, roubos e busca por tesouros antigos. Os problemas parecem que seguem Tintim, não importa aonde ele vá. Não adianta, ele sempre precisa descobrir a próxima pista.
O que mais se destaca no trabalho de seu criador é o zelo que ele teve com a escolha dos tons, do traço delicado. Um contorno minúsculo acima do olho e o personagem ganha uma nova expressão de espanto. Como todo bom quadrinista, Hergé conseguiu marcar para sempre seu nome na história das HQs.

Parte dessa fama e a legião de fãs que ela traz é o que torna uma adaptação como essa tão comentada na Internet. Vi muitos sites comentando que nunca chegariam aos pés do traço de Hergé, mas se esquecem que essa é outra mídia. Na verdade achei até que os criados do filme foram conservadores demais. Vamos falar nesse artigo então, quais foram os pontos mais altos do filme e quais foram as bolas foras também.

A convite da Companhia das Letras, fui assistir à sessão em 3D da sala IMAX do Shopping Bourbon de São Paulo. Nunca tinha ido lá. Fiquei surpreso, pois ver um filme em IMAX é muito envolvente (veja mais detalhes aqui), pois a dimensão extra ajuda bastante na imersão do espectador na ação do filme. Não se esqueçam de dizer nos comentários se já tiveram a oportunidade de assistir ao filme (ou se pretendem ir vê-lo).
Agora faremos uma pequena review do filme fusionada com a nossa coluna “Adaptações”, afinal, alguns filmes não podem ser discutidos sem comentarmos sobre as obras que deram origem a eles. Não se preocupem que tentaremos não entrar no terreno da criatura Spoiler.

Inaugurando a coluna adaptações!

Para quem não conhece Tintim, essa é uma boa introdução ao universo do personagem. Não deixaram de fora as citações às obras para os fãs (só na cena do mercado de pulgas há umas 6 referências, por exemplo), sem contar as referências aos quadrinhos “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, à Madame Castafiori e aos méritos de Tintim ajudando a polícia a prender os bandidos.

A produção do filme disse que poucos foram os elementos usados da primeira graphic novel e, por isso eles usaram como base o “Segredo do Licorne” e o “Tesouro de Rackhan o Terrível”. De certa forma é verdade, mas há elementos sim. O encontro com o Capitão Haddock, o navio Karaboudjan no porto, o avião e a escapada. O que eles fizeram foi adaptar esses elementos, extraí-los e usá-los para introduzir a história de o Segredo do Licorne.

Nesse filme Tintim se vê envolvido em uma corrida contra o tempo para encontrar os mapas para um tesouro de piratas há muito tempo perdido. Tem perseguições policiais, tiroteios e muita ação. Embora esse filme tenha alguns elementos de piadas que para os adultos possam parecer muito “bobas” aqui e ali, há outras que só adultos entenderão. Não me controlei e dei muitas risadas. É uma pena não poder comentar sobre as piadas das quais mais ri, mas tem a ver com garrafas de rum. Além disso, achei que no geral o filme ficou com um tom mais sinistro, mesmo não tendo muitas mortes e acho que esse é um caminho legal.

Notei algumas diferenças essenciais entre os quadrinhos, inclusive cenas em que o Milu fica para trás, o primeiro encontro entre o Capitão Haddock e Tintim e nos quadrinhos acontece de outra forma, diferenças bem sutis quanto a história como um todo, mas achei vários desses elementos interessantes para a trama. Falando em Milu, a cena em que ele bebe rum foi transformada e o sentido mantido. Curti que eles tentaram manter o espírito de Hergé vivo nos detalhes, como por exemplo, o lance de Milu se comportar como uma extensão ou melhor, como o subconsciente de Tintim. Nos quadrinhos ele chega até a responder para Tintim (vide a imagem na resenha dos quadrinhos aqui), mas ele não ouve, ele “sabe” o que Milu diz, dando mais crédito ao meu ponto.

Acertaram em vários pontos do longa. No começo estava morrendo de medo de o Spielberg e o Peter Jackson terem feito um belo de um cocô, como muitas adaptações fizeram nos últimos anos, sem contar que Spielberg tem uma mania de inserir lições de moral forçadas demais nos filmes que ele faz (pelo menos ultimamente), porém o filme acabou me surpreendendo bastante. Sem contar as vozes dos personagens que se encaixaram como uma luva, principalmente a do Capitão Haddock (feita por ninguém menos que o ator que fez o Smeagol em O Senhor dos Anéis, Andy Serkis) e a voz do personagem Sakharine (feita pelo Daniel Craig).

O clímax do filme (e na minha opinião a melhor parte) é a das lembranças do passado da luta dos piratas. A ação, espadas cruzando o ar, barris de pólvora… tudo muito empolgante. O ponto fraco do filme ficou apenas para o scoretrack, que embora tenha se encaixado perfeitamente para dar o tom épico que Tintim merece, certas vezes sinto falta daquela trilha do desenho animado que gruda muito na mente. O trabalho de John Williams é bem intrincado, perfeito para apresentar os personagens apenas com a sua trilha, como a trilha dedicada aos irmãos detetives da Interpol, Dupont e Dupond, mas achei que deveriam ter trabalhado para que a score principal grudasse para sempre na memória, como acontece com Jurassic Park, por exemplo. Talvez eu mude de opinião assim que ouvir com calma na versão em Blu-ray e com fone de ouvido.

Já o gancho do final do filme só deixará morrendo de raiva quem não leu os quadrinhos, pois acho que fizeram essa separação para fazer uma apresentação adequada e à altura de um personagem muito querido para a série, o Professor Girassol no próximo filme para a exploração marítima e suas engenhocas (como é mostrado nos quadrinhos). Spielberg já revelou que as preparações para o próximo filme já começaram. Já a Companhia das Letras, embora não sejam em capa dura, todos os volumes já foram lançados e estão há eras no catálogo deles. Vocês podem dar uma lida antes de ir ao cinema, claro. Vejam aqui a resenha.

Embora não tenha gostado a princípio da forma como colocaram o Capitão Haddock de um jeito bem bobo e decadente, entendi o princípio. Capitão Haddock passa pelos apuros e sua intenção, mesmo que inconsciente, é de ser tão confiante e realizado quanto François. Tendo isso em mente, toda jornada do herói necessita de um contra ponto e esse é o arqui-inimigo inserido na história, com uma base retirada da graphic novel, que à princípio parece maniqueísta, mas que contribui para dar mais tensão e suspense, dando um tom sinistro (até mais do que a adaptação em série animada), colocando-os em perigo mais vezes.

Embora os estúdios não estejam acertando tanto assim ultimamente com filmes 3D, esse, pelo menos para mim, foi uma bela de uma exceção, curti a maneira que nesse filme o espectador entra na cena. É muito legal ver a bengala do personagem apontada para você ocupando a distância inteira desde a tela, assim como os afastamentos de câmera que revelam a cena completa, os personagens destacados do fundo, a poeira suspensa no ar, a chuva caindo entre você e a tela e os vários ângulos que eles exploraram para as cenas de ação, com saltos, combate em alto mar e até mesmo uma batalha de guindastes de porto. São detalhezinhos que colocam a pessoa dentro da ação, isso é um ponto extra muito perfeito e que faz você se perguntar se x, y ou z filmes não seriam melhores se fossem vistos no cinema. Além disso, acho que se você perder um filme desses, para experimentar uma sensação parecida, só mesmo com o Blu-ray 3D.
No fim das contas achei a experiência muito boa, amplia mais ainda (como se precisasse, risos) o universo de Tintim para os fãs e dou cinco carteiras como nota para o filme.

Trailer legendado:
Curti bastante esse spot de TV também
E aí? Vão assistir?
Resenha dos quadrinhos aqui.
Review: Alonso Lizzard
Fotos: Divulgação. Imagem da sala IMAX aqui.
Edição de imagens: Alonso Lizzard


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