
Gosta de contos de fadas? Mas não daqueles com finais felizes… e sim dos que voltam às origens do gênero, sombrios, tétricos… se esse tipo de leitura não agrada você, bem, mesmo assim tente ler minha resenha até o fim, vai que consigo convencê-lo a dar uma chance para esse livro?
“A maldição da pedra” é um livro, no mínimo, peculiar. É estranho… fiquei buscando na minha memória para ver com o que se assemelhava o livro e me lembrei que o tom de frieza da história não é tão incomum… já li alguns livros de escritores alemães, e percebi esse tom de frieza n’alguns livros alemães. Mas, hey!, não achem que não gostei do livro. Eu gostei, mas ele tem essa estranheza que, a princípio, nos deixa um pouco distanciados dos personagens… no final, a personagem com quem mais simpatizei foi Fux, a garota-raposa.
Os capítulos curtos (cheios de ilustrações belíssimas) fazem com que a narrativa flua, e, assim, vamos virando uma página atrás da outra, para ver o que acontece em seguida… a narração em terceira pessoa, entremeada com os pensamentos dos personagens, faz com que ficamos sabendo mais ou menos como eles se sentem em toda aquela situação que é, para dizer o mínimo, bizarra.
E aí eu me lembro da resenha que a Claudia Charão fez lá no blog dela, o Concentrófoba, citando o Bizarro, do Superman. Se o mundo do outro lado do espelho realmente parece uma versão bizarra de nosso mundo, ainda me recordei do rosto do bizarro.

E as referências a contos de fadas não faltam… vamos lá?

“Uma selva de raízes, espinhos e folhas. Árvores centenárias e árvores jovens que se esticavam em busca da luz que incidia muito escassamente sob o denso teto de copas. Enxames de fogos-fátuos sobre charcos pútridos. Clareiras nas quais cogumelos venenosos traçavam círculos mortíferos.”
Uma das coisas de que mais gostei nesse livro foi como usaram os cabelos da Rapunzel ― numa versão totalmente diferente tanto do original, claro, já que é reinvenção, ao contrário da versão feliz e fofinha recente feita pela Disney, em Enrolados. E foi uma versão distorcida muito legal dos contos de fadas! Não fica só em Rapunzel, há muitas referências, e um passatempo divertido seria ficar “catando” todas as referências sutis, que estão lá, além das que são declaradas, claro. Você vai descobrir o que “realmente” aconteceu com Branca de Neve e com a Bela Adormecida ― novamente, são reinterpretações nada felizes como as que atualmente estamos acostumados, graças aos filmes da Disney (que adoro, mas convenhamos que o “HEA” ― Happily Ever After, siglas são algo bem comum nos blogs sobre livros americanos, e ainda falarei mais delas aqui no icultgen, aguardem! ― impera nas histórias da Disney. Nada contra, claro, pois de vez em quando eu também quero minha cota de HAE nos livros e nos filmes, mas já estou divagando… hehe).
“O pai da imperatriz, contudo, que determinara por lei que objetos, animais e pessoas com propriedades mágicas fossem apresentados às autoridades. Afinal, não era fácil governar num mundo em que mendigos podiam ser transformados em príncipes por uma árvore de ouro e animais falantes sussurravam lições subversivas aos trabalhadores da floresta.”
“Os unicórnios ergueram a cabeça. Naturalmente, eles não eram brancos. Por que em seu mundo as pessoas gostavam tanto de colorir as coisas de branco? Seu pelo era castanho e cinzento, malhado de preto e de um amarelo-pálido como o sol de outono que pairava na névoa acima deles.”
“Acima deles, uma coruja piou. No Mundo do Espelho, elas eram consideradas a alma de bruxas mortas.”

“A amante de Kami’en, como sempre, usava verde, camadas de veludo cor de esmeralda, que a envolviam como as pétalas de uma flor. Mesmo a mais bela mulher goyl empalidecia ao lado dela como cascalho ao lado de pedra da lua polida, mas Hentzau vivia proibindo seus soldados de olhar para ela. Não era à toa que existiam tantas histórias sobre fadas que, com um só olhar, transformavam homens em pés de cardo ou em peixes que ficavam estrebuchando indefesos. Sua beleza era veneno de aranha. A água engendrara a ela e a suas irmãs, e Hentzau a tema tanto quanto aos mares que corroíam as pedras do mundo.”

Peculiar, gótico, expressionista, o romance de Cornelia, o primeiro da trilogia, tem personagens adultos, embora vários não se comportem como tal. O irmão de Jacob, que está virando uma espécie de humano-goyl (sendo Goyl o ser de pedra do outro lado do espelho), espera que o irmão resolva seu problema como se fosse obrigação… e eu percebi que faltava um pouco de paixão nos personagens… não uns pelos outros apenas, mas aquela vivacidade… a personagem mais intensa desse livro é, sem sombra de dúvidas, a garota-raposa Fux. No geral, o romance não tem grandes explosões emocionais, mantendo-se, como falei lá em cima, mais frio e descritivo… exceto no tocante à garota-raposa e fada vermelha, as duas personagens mais intensas do livro.
“O brasão ostentado na porta do escritório exibia, acima do lírio das fadas, o animal heráldico dos Valiant: um texugo sobre um monte de táleres de ouro. A porta na qual ele estava pendurado era de pau-rosa, um material conhecido não apenas por seu alto preço, mas também por seu isolamento acústico, razão pela qual Valiant nada percebera dos acontecimentos da antessala.”

“Era somente por amor ao irmão que ele sempre voltava ao outro mundo (…) a mãe chorava e ameaçava mandá-lo para o orfanato, sem fazer idéia de onde ele se escondia, mas Will punha o braço em volta de seu pescoço e perguntava o que lhe trouxera. Sapatinhos de gnomo, o gorro de um polegar, um botão de vidro élfico, um pedaço da pele escamosa de um tritão – Will escondia os presentes debaixo da cama e acreditava sem pestanejar que as histórias que o irmão lhe contava sobre aqueles objetos eram contos de fadas inventados especialmente para ele.
Agora ele sabia que eram todas verdadeiras.”

A história é muito legal, mas eu daria nota 5 se tivesse conseguido me apegar mais aos personagens… a estranheza e singularidade do livro, aliadas à beleza da escrita de Cornelia fazem com que sua leitura seja muito válida, e meu único ponto de “reclamação” mesmo é esse distanciamento, essa impressão de frieza que me passaram os personagens e a narrativa em geral, sendo que, ao mesmo tempo, amei a criação de mundo feita por Cornelia, nessa visão doente do outro lado do espelho… aqui me lembrando do episódio Mirror Mirror, de Star Trek, mesmo que não existam versões diferentes de pessoas daqui, o mundo por trás do espelho é uma versão bizarra de nosso mundo, e toda a criação desse universo mesclado de contos de fadas com criações da própria autora despertam no mínimo curiosidade por causa de sua singularidade e peculiaridade.
Nota? 4 Raposas ruivas

Resenha: Ana Death Duarte
Edição de imagens (e fotos): Alonso Lizzard.
Fonte da imagem dos quadrinhos inspirados em Star Trek: IDW
