
Se alguns consideram tênues os limites para a distopia off-world, é um pouco mais complicado ainda delimitar as barreiras da fantasia distópica, mas tentarei aqui, por observações minhas e de estudiosos (fontes no final), ao menos exemplificar o que seria a fantasia distópica e/ou o sobrenatural distópico.

Se não é tão difícil entender os motivos pelos quais os livros que deram origem à série True Blood e a própria série são distópicos, como explicou a Scheila, do Distrito 11 aqui, e, pelos mesmos motivos fique fácil ver como o filme Daybreakers (“traduzido” no Brasil com o horrível título: 2019: O mundo termina aqui) tem uma premissa também distópica, em alguns casos, os elementos distópicos (alguns já citados no primeiro artigo da nossa coluna Rastreando Distopias), podem não ser tão claros. No caso o filme “Daybreakers” fica bem no limiar de fantasia (ser e cura sobrenatural) e ficção científica (vírus), assim como também ficam nesse mesmo limiar, o filme Ultraviolet e a série de livros Vampiros em Nova York (Peeps), do Scott Westerfeld (inclusive, Scott usa o termo “anátema”, religioso, em referência às origens do vampiro na vida “real”, cujos mitos nasceram do pavor das pessoas de que seus mortos se tornariam vampiros, um medo imposto pela religião na época).

Mas vamos primeiro quebrar os tabus: nem toda distopia é ficção científica. Nem toda distopia tem um governo ditatorial. Nem toda distopia pode ser vista como distopia por quem vive nela.

E, por incrível que pareça, quando seres sobrenaturais começam a controlar atos do governo, manipular crises mundiais e coisas do gênero, bem, para mim isso é muito distópico, não apenas como opinião minha, mas como base em muitas pesquisas. E um bom exemplo disso é o RPG Vampire: The Masquerade (Vampiro: A máscara), em que, embora eles “tentem” manter essa máscara, muitos vampiros estão por trás de quase todas as grandes decisões tomadas na história da humanidade, assim como em Batman Begins, para citar outro exemplo.

Se deveríamos fazer um tópico à parte para a distopia com super-heróis? Sim. Mas Batman Begins (e quem viu o filme sabe do que estou falando) serve como um ótimo exemplo aqui.

De instituições não governamentais, seres, se não sobrenaturais, mas com poderes e/ou habilidades que estão por trás de grandes eventos da humanidade. O que não é diferente de Watchmen. Porém, como quase sempre, lá estou eu me adiantando…

Mas já que citei os super-heróis, é diferente com X-Men First Class, por exemplo, cuja origem é científica, pois eles são “Filhos do Átomo”, e foi a radiação que criou os mutantes, para simplificar as coisas, e não um evento sobrenatural.

Assim como, pelo menos até o livro dois da série “Gone”, da Galera Record, de Michael Grant, eles também seriam Filhos do Átomo. Origem científica. Não sobrenatural.
Pode ser mais complicado e até contraditório analisar a distopia em um livro cujo ambiente é basicamente distópico, mas há elementos que não o são. Mais um tabu a ser quebrado: Um livro não precisa ser apenas distópico. Um livro pode se encaixar em diversos gêneros, e muitas vezes, isso amplia a grandiosidade da obra.

O que me levou a pensar… em um livro que já resenhamos aqui, “A maldição da pedra”, da Companhia das Letras. Ele pode ser considerado uma fantasia distópica, a partir do momento em que “o outro lado do espelho” é o mundo distópico, e aí entramos no mundo alternativo e/ou paralelo como sendo o lado distópico da história.

O que nos leva a Coraline, de Neil Gaiman, da Editora Rocco, em que o outro mundo e os outros pais são o que constituem a distopia nessa obra de fantasia.
É um tema controverso, sim. Mas já foi citado no filme Thor, e em diversos outros lugares, o que Arthur C. Clarke disse, mais ou menos assim, que magia e ciência já foram considerados dois lados da mesma moeda. O que antes era considerado magia, hoje é visto como ciência, pois o ser humano vive de descobertas. Afinal, se soubéssemos de tudo, que graça teria a vida?
E, embora um livro/filme, enfim, uma obra, possa não ser classificado como distópico em primeiro plano, pode sim conter elementos distópicos, e se forem em algo grau, haverá de ser classificado como tal.
Mais um tabu quebrado: não é porque as coisas são distópicas em apenas uma sociedade “isolada” (seja uma ilha, uma cidade, etc.), que não é distópico.

Eu ousaria dizer que até mesmo a série de TV, agora em sua terceira temporada, The Vampire Diaries, está beirando a distopia, já que as vidas dos seres humanos está em constante xeque-mate por causa de decisões e atitudes tomadas por seres sobrenaturais ― mesmo que nem todos tenham consciência disso.
E é mais um motivo para eu dizer o quão complexo é dizer o quanto uma obra sobrenatural/fantástica é ou não distópica. Se não sabe ao certo, analisar se há predominância de elementos distópicos é um bom começo. Como sempre, pesquise. Analise. Não “chute”.
Na fantasia distópica, por exemplo, a ocorrência de um mundo alternativo distópico é um elemento forte, enquadrando aqui Coraline e A Maldição da Pedra. Mas não é só isso.

Quebrando mais um tabu: Durante muito tempo, infelizmente, se limitou a distopia ao campo da ficção científica, o que, na verdade, não é bem assim. Pois o que foi ficção científica no passado, já virou realidade hoje em vários casos. O celular, para citar apenas um exemplo. Totalmente inspirado em Star Trek (Jornada nas Estrelas).
As normas sociais aplicáveis podem ser uma boa sugestão de se o livro que você estiver lendo se encaixa ou não nessa categoria. Em um mundo em que aqueles que têm poderes são subjugados, por exemplo, bem, há o que se dizer quanto à distopia, mesmo que se limite a uma sociedade pequena, uma cidade isolada, e não o mundo todo. Pois o conceito de sociedade não se limita a um mundo inteiro, vai muito além disso.

Muitas vezes a sociedade distópica é vista como utópica, perfeita, por seus “habitantes”, até que alguém se rebela, ou percebe as “rachaduras” na perfeição. Na fantasia/no sobrenatural distópico, um mundo fantástico e/ou sobrenatural distópico e até mesmo sem esperanças se apresenta. Um em que forças das trevas, controle imperial (grande parte de obras chamadas “Dark Fantasy” se encaixariam aqui, mas eu posso citar a série de TV, pois não li os livros, Legend of the Seeker, que contém muitíssimos desses elementos distópicos-fantásticos, em que coisas ruins acontecem a pessoas boas e deuses das trevas são adorados e saciados.

Algo bem distópico só para fazer vocês pensarem seria: Se em O Senhor dos Anéis, Sauron tivesse “ganhado a guerra”? Seria uma fantasia distópica terrível, um “what if?” terrível, mas serve como um bom exemplo de possível fantasia distópica.
Muitas vezes, na fantasia e no sobrenatural distópico, é necessário se aliar ao “mal menor”, pois as diferenciações entre bem e mal também são tênues. E o grande dilema de não saber em quem confiar não está tão distante assim de nossa realidade.

E, às vezes, um cataclismo, um grande evento, faz com que surjam poderes nas pessoas, como é o caso de “Nas Sombras”, da Galera Record; em “Os Gêmeos”, da Companhia das Letras, também houve um evento que levou aquela sociedade a ficar como estava…. e nesse universo fictício, tal “desastre” ou “evento” pode ser apenas mencionado ou descrito a fundo, ou pode vir a ser descoberto ao longo de uma série, se for o caso. O que não é muito diferente da vida real, em que todos os fatos não estão expostos em uma mesa ou em arquivos de fácil acesso.
Mais uma quebra de tabu: embora a literatura distópica tipicamente tenha como foco eventos que se passam no futuro, nada impede que tais eventos se passem no presente e no passado!

E não é necessário que o mundo inteiro saiba de tais eventos, uma micro-sociedade envolvida ou o mundo, uma macro-sociedade, já pode ser o suficiente para trazer a distopia à tona. E ouso também dizer que, embora tenha lido apenas o primeiro livro da série, The Iron Fey, tem muitos elementos distópicos, pois o “mundo paralelo” causa alterações e interferências na “nossa realidade”.

Há ainda algumas obras que mesclam o sobrenatural e o científico de propósito, possivelmente com base na premissa de Arthur C. Clarke. Ou não. Não importa. Espero ter esclarecido aqui um pouco sobre a fantasia/o sobrenatural distópico, além de quebrar alguns tabus sobre distopias.
O campo de estudo é vasto, os próprios estudiosos se dividem, como em diversos outros campos de estudo. O que sugiro é uma boa pesquisa e, se você não tiver certeza de que o livro seja 100% distópico, pelo menos certifique-se de que ele contenha ou não elementos que o caracterizem como tal.
Artigo por: Ana Death Duarte
Fontes de pesquisa:
http://en.wikipedia.org/wiki/
http://www.sffchronicles.co.uk/forum
http://postmortemstudios.wordpress.com/
Ps.: Estou citando as fontes de pesquisa, porque fiz a pesquisa, mas desenvolvi o texto praticamente sem recorrer a uma mera tradução das fontes, e sim com base nessas pesquisas mais meus conhecimentos já adquiridos em estudos prévios.
Links relevantes:
Review do filme: X-Men – Primeira Classe
Resenha do livro Gone – O mundo termina aqui
Resenha do livro Morto até o anoitecer





















































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