
“You either have a feeling or you don’t”. É isso que vem escrito na caixa do kit que a Companhia das Letras enviou junto com o livro, que é uma amostra do que Min devolve a Ed, seu ex-namorado. E é bem por aí… feeling, uma palavra em inglês com tantos significados que, ainda bem, foi mantida em inglês no livro nos momentos certos… porque não se trata apenas de um sentimento, de uma sensação, de uma percepção ou de qualquer tradução que conste em dicionários diferentes.
O feeling é quase algo “sobrenatural”, diriam alguns, porque se tem um feeling de que algo vai dar errado, de que “tem um cheiro estranho no ar” quando alguém diz ou faz uma coisa que parece x, mas em suas entranhas, esconde um y muito feio e degradante. Mas o feeling também pode ser de algo bom, e por isso mesmo, embora muitos digam que a palavra portuguesa “saudade” seja intraduzível, feeling é uma das palavras em inglês que se encaixam nesse quesito: uma única tradução limita e mata o sentido. Porque “você tem um feeling ou não o tem”, e é isso que quer dizer a frase que deu início a essa resenha. E, Daniel Handler, com cujo heterônimo, Lemony Snicket, escreveu “Desventuras em Série”, teve um tremendo feeling com esse livro, não só captando nuances de um relacionamento em si, como, sendo um autor, homem, captou muitíssimo bem os feelings femininos, sem preconceitos, sem frescura, no íntimo, no âmago, nos momentos felizes e de amargura. E foi por isso, entre outros motivos, que adorei esse livro.
“You either have a feeling or you don’t” é uma frase muito potente, e fiquei ainda mais feliz por saber que era do próprio Handler, já que Hawk Davies é um cantor fictício, mas foi divertido mesmo assim procurar no you tube pela música e ver que, pelo recurso de auto-completar, Handler conseguiu um feito: váááárias pessoas pesquisaram por isso, pois estava lá, no auto-completar, como podem ver no print:

Inclusive, algumas pessoas afirmavam categoricamente (ai, por que não pesquisam, rs), em vários lugares da internet, que era filho do Miles Davies, um cantor de jazz real. ;p
Curiosamente, Coleman Hawkins, também um cantor de jazz (tenor) era conhecido como “Hawk”, o falcão do jazz, então pode ter sido daí (ou não, mas é legal fazer teorias, como já falei no post do Rammstein ;p, faz bem para o cérebro, rs) que ele fez a junção e criou a persona do Hawk Davies para o livro “Por isso a gente acabou”. E foi por isso, por mais este motivo, que esse livro me encantou!

“Estou largando essa caixa toda de volta na sua vida, Ed, cada pertence do meu eu com você. Vou largar essa caixa na sua varanda, Ed, mas é você, Ed, quem está sendo largado.”
Como Min ― que se chama Minerva, a deusa virgem romana da sabedoria, entre outros atributos que lhe são dados ―, a garota que escreve a carta-livro “Por isso a gente acabou” ao ex-namorado, Ed, um misto estranho de atleta que é bom em matemática, mas que tem vergonha disso, assim como esconde os gostos que não são bem vistos aos olhos dos “colegas” ou de seus “iguais”, digamos assim… e tem a mania irritante de dizer que tudo é “gay”… bem, como Min (que detesta ser chamada de Minnie ― e Handler faz mais algumas brincadeiras com nomes no livro, mas não vou contar tudo para não estragar toda a graça para vocês) era entusiasta de cinema antigo, ela vive citando exemplos de filmes de que ela gosta que se encaixam nos momentos em que vive, bem…
Eu amo cinema, estudei roteiro e história do cinema, o que me levou a conhecer filmes antigos, além de ver vários com a minha avó quando eu era adolescente ― e outros, na escola, nas sessões filmes trash passadas por um dos meus melhores amigos que era do comitê organizador das festas e eventos da escola e sempre descolava os clássicos trash pro pessoal ver, hehe, bons tempos de escola!, poxa, eu não conhecia nenhum daqueles filmes!!!! Daí a perceber que eles também eram frutos da imaginação do Handler foi um passo. E que imaginação a do Handler, uau, e foi por isso, também, que adorei “Por isso a gente acabou”.
“Você sabe que eu quero ser diretora, Ed, mas você nunca viu de verdade os filmes da minha cabeça e foi por isso, Ed, que a gente acabou.”
Achei interessante também o nome da festa de 16 anos do melhor amigo de Min, o Al ― um dos meus personagens prediletos do livro. Ficou traduzido como Dezesseis do Desgosto, mas, para quem sabe da história por trás da importância da comemoração dos 16 anos, especialmente para as meninas, nos Estados Unidos, deve se lembrar que costuma ser chamado de “Sweet Sixteen”. Mas a ideia dele é de fazer algo desgostoso, inclusive de ter em sua festa um bolo incomível, e, ainda a título de curiosidade, em inglês era “the bitter-sweet sixteen party”.
O “Sweet Sixteen” se refere àquele sonho “causado” pela imposição da sociedade, claro, e por contos de fada à la Disney (eu amo a Disney em vários aspectos, mas isso de fazer com que as meninas sonhem em ser levadas até o pôr do sol com final feliz com 16 anos para mim, sei lá, nunca engoli) e em Enrolados (Tangled), eles mudaram esse paradigma, tanto que é um dos filmes de que mais gosto deles, além de A Bela e a Fera, óbvio), e o livro do Handler faz a gente divagar com essas coisas… e foi por isso também que esse livro já entrou para minha lista de queridinhos.
“Eu fui uma boa convidada, Ed, e você não disse nem “amargo aniversário” nem deu um presente para o seu anfitrião, e foi por isso que a gente acabou.”
“Amargor pra você, nessa data fedida, muitas calamidades (…) muitos anos de dor.”
Eu não vou entrar em detalhes demais sobre a história em sim, vocês sabem (os que estão acostumados a ler minhas resenhas, ao menos) que não costumo fazer isso. Mas Min, enquanto escreve a carta-livro, que vai ser devolvida junto com uma caixa ao Ed (como a que veio no kit da Companhia das Letras e que vocês podem ver nas fotos aqui), e o livro é enorme!

Se vocês acharam a carta de Friends grande… esse livro é “a carta”.
E, mais uma vez, eu me lembrei de algo… de duas coisas, na verdade: de uma carta, em um episódio de Friends, se não me engano, de umas 28 páginas, à mão, que a Rachel escreveu para o Ross*** depois que eles terminaram e que ele não teve paciência de ler e que os levou a terminar de novo quando ela descobriu… Bem, uau, isso não é nada perto da quantidade de páginas da carta da Min ao Ed.
“Agora eu estava olhando para uma coisa, fitando. Quantas, eu me perguntava, quantas coisas terríveis iam ser projetadas diante de mim, cenas ruins de filmes piores, erros imbecis, quantas imitações baratas teriam que ser arrancadas das paredes?”
A segunda coisa é que ela mesma, ao escrever essa carta, vai descobrindo que não foi só o “evento final” que fez com que tudo acabasse, e sim várias coisas que foram se acumulando, como se ela, que gosta tanto de cinema, revisse sua história com Ed como um filme em retrospecto e que ela foi tola também, e não viu os sinais e, bem, foi por isso também, e da linguagem dentro da linguagem no livro, que eu adorei “Por isso a gente acabou”.
“Eu era uma imbecil, sim, uma tola, uma idiota. Eu sou uma idiota, Ed, outro motivo pelo qual a gente acabou.”
“Eu não sou romântica, sou miolo mole. (…) sou uma lunática procurando restos, sou como qualquer imbecil fracassado de quem já desviei e fingi que não conhecia. Sou todos eles, todas as coisas feias feitas numa fantasia de última hora. (…) Eu sou um defeito defeituoso ambulante, uma ruina arruinada, um desastre, um fracasso tão grande que nem vejo mais o que já fui.”
Mais um momento de curiosidade: a atriz que Min decide “stalkear”, quer dizer, “verificar” se é ela mesma. Também é fictícia, mas como não contenho a curiosidade, rs, olhem o que encontrei:
Um obituário de Lottie M. Carson, que era enfermeira, morta em 2011, ano em que o livro foi lançando originalmente lá fora, e os dados do censo de uma Lottie Carson nascida em 1900!
“― Não, fica aqui. Devemos segui-la a uma distância discreta ― essa eu aprendi em “Meia-noite no Marrocos”.”
“Eu não fumo, embora isso pareça fantástico nos filmes. Mas acendo fósforos naquelas noites vazias e pensativas quando subo no telhado da garagem para ficar com o céu enquanto os meus pais dormem inocentes e carros solitários passam em ruas distantes, quando os travesseiros não esfriam e os lençóis cobrem o meu corpo não importa o quanto eu me mexa ou fique parada. Fico ali com as pernas penduradas e acendo fósforos e os vejo chamajarem até apagar.”

Handler atiça nossa curiosidade, e foi por isso, muito mesmo, que adorei esse livro. Ele atiçou minha curiosidade antes mesmo de eu ter o livro em mãos, pelo título. Eu me lembrei de uma leitura recente em o personagem principal considerava que deveria haver uma espécie de “entrevista” com a ex, para saber no que o cara errou. E foi por isso, a princípio, que decidi ler esse livro do Handler.
“Para de dizer ‘sem quer ofender’ quando diz coisas que ofendem. Você não ganha permissão automática.” ― Min a Ed.
Antes eu só tinha visto o filme de “Desventuras em Série”, de seu heterônimo ― já que ele mesmo considera o Lemony Snicket outra persona, e seu estilo é bem diferente na escrita (caramba, ele realmente escreve como uma menina daquela idade e todos os outros personagens e a Lauren e… uau!!!!!) e foi por isso também que amei “Por isso a gente acabou”. Porque quero ler mais coisas do Handler, e também fiquei curiosa para ler os livros de seu “alter-ego” ^^
“A única pessoa que não a Lauren que teria permissão de mexer na bolsa dela seria aquela que a encontrasse morta numa vala e estivesse procurando seus documentos.”
“― Cobra isso e nos deixa em paz.
― Não tenho por que tolerar isso ― esbravejou ela. ― Nove e cinquenta.
Você tirou uma nota do bolso e deu para ela.
― Não fica assim. Você sabe que é a minha preferida.
A velha se derreteu pela primeira vez desde a Era Paleozoica. Você piscou e pegou o troco. Eu deveria ter visto, Ed, como sinal de que você não merecia confiança.”
“Quer merda, acho que eu já te amava. Condenada, como uma taça de vinho sabendo que um dia vai cair, sapatos que logo vão ficar gastos, a blusa nova que logo você vai sujar.”

Eu poderia continuar fazendo uma lista imensa de motivos dizendo porque eu li e gostei demais e recomendo esse livro, mas vou terminar com o seguinte: não achem que o livro é um reflexo de uma frustração de alguém que terminou o namoro pura e simplesmente. É claro que essa frustração existe, não há como fugir disso. Mas o livro fala sobre descobertas, sobre amizade, enganos, da nossa parte e dos outros, pois Min também reflete sobre onde e no que ela errou… é um retrato sobre o que alguns fazem com os amigos quando estão cegamente apaixonados, mesmo sem querer ― cadê a sabedoria, Minerva? Mas a sabedoria vem justamente com as experiências. E Min as tem. E, como costumam dizer meus amigos, desde a adolescência, você precisa ter uma história de vida para contar. E ela precisa ser interessante. E Min tem sua história contada. E foi por isso, também, que li, amei e recomendo a vocês, “Por isso a gente acabou”.
Nota: 5 cafés com muito creme e açúcar

Alerta de Spoiler da série de TV “Friends”:
Curiosidade: O episódio a que me referi de “Friends” é o primeiro da 4a. Temporada, e se chama “The one with the jellywish” (Aquele com a água-viva). Nele, Ross termina com Bonnie durante uma noite inteira, e ela vai embora pela manhã. Enquanto isso, Rachel escreve uma carta enoooooorme para Ross, que ele teria que ler para que os dois pudessem voltar a namorar; ele tenta ler a carta e acaba dormindo, mentindo quando é questionado por Rachel se ele a leu. Ross concorda com cada palavra dita na carta até descobrir realmente seu conteúdo: que era para ele aceitar que eles tinham terminado por culpa dele, não consegue mais fingir que a tinha lido antes, nem concordar com o que diz a carta e eles terminam… de novo!
Ps.: Pergunta feita ao Daniel Handler e respondida no Blog da Companhia
Anica: Alguma chance de sair um livro com o ponto de vista do Ed?
Daniel Handler: Ed não é uma pessoa muito expressiva, então não acho que o ponto de vista dele seria longo o suficiente para render um livro. Talvez um post-it.
Resenha e fotos do livro: Ana Death Duarte
Curtiu? Então..
Observação:
Os itens, inclusive a caixa mostrada não vêm com o livro.
Trata-se de um material de divulgação
para ilustrar os itens mencionados no próprio livro.
Editora:






















































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