Coluna: Indicações de quadrinhos #1

1. Not quite dead – O último show – Gilbert Shelton

Essa é uma HQ que faz uma divertidíssima ― e cheia de humor negro, claro ― sátira aos exageros causados pelo fundamentalismo religioso oriental, numa mescla com uma crítica a algo que não temos como ignorar: a ensandecida busca pelo petróleo e todos os males que vieram por causa disso.

E se eu falar a vocês que um dos personagens mais legais dessa HQ é um Cadillac?

Sério, eu fiquei bem curiosa logo que vi esse título como lançamento da Conrad, pois ele mescla elementos da nossa realidade e faz uma sátira que beira a distopia, mas nos lembra, infelizmente, muito nossa realidade. É bem para rirmos e nos conscientizarmos do problema rindo, pois ele está lá e não temos como fugir dele. Mas que é divertido é!

Not Quite Dead é exatamente o oposto de uma banda famosa e, por uma série de motivos que não vou contar aqui para não estragar a surpresa, eles são escolhidos pelo Departamento de Cultura, digamos assim, dos Estados Unidos, para fazerem uma turnê internacional. A primeira turnê internacional da banda, de uma banda desconhecida e eles nem desconfiam de nada… ingenuidade é pouco…

Mas a aventura se desdobra de um jeito tão legal e insano e assustador e divertido e eu poderia inserir um monte de adjetivos aqui e só lendo mesmo pra vocês verem o quão legal é.

Bem indicada a quem procura algo sobre o tema exposto, em estilo de sátira e com o bom e velho rock’n’roll como pano de fundo. E sabem o que é melhor? Tem uma história, não é uma sátira pura e simples, é divertido, leve, eu li muito rapidinho, adorável. Para quem curte um humor negro, repetindo.

A banda se mete numa encrenca daquelas, com governo, extremistas fanáticos religiosos, enfim, todo tipo de coisas que gerariam horrores dramáticos e nessa forma de sátira nos divertem ao mesmo tempo em que nos fazem lembrar desses elementos perturbadores do mundo em que vivemos.

Acho bem legal que obras como essa sejam publicadas, pois no meio do humor, as pessoas podem se dar conta do horror que permeia a realidade em que vivem, sem terem que ler livros tão sérios sobre o assunto ― porque dói, gente, como dói… ― afinal, precisamos de opções no mercado. E achei um tremendo acerto da Conrad e fiquei curiosa para ler os outros dois volumes dos Freak Brothers.

Ah, e para provar que uma ou outra nota de rodapé em quadrinhos não mata ninguém e esclarece muita coisa ao leitor, há notas onde se fazem necessárias, preciso dizer que adorei isso, mesmo quando eu sabia qual era a referência. Pois nem todo mundo sabe e nem é obrigado a saber.

Nota? 4 Cadillacs vermelhos

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2. Graphic novel: O fantasma de Canterville – Oscar Wilde

Quando uma menina de ouro conseguir ganhar uma oração dos lábios do pecado, quando a estéril amendoeira florescer, e uma pequena criança oferecer suas lágrimas, então toda a casa se acalmará e a paz chegará a Canterville.

Essa GN é uma adaptação com texto integral do conto homônimo de Oscar Wilde ― particularmente, um dos que eu mais gosto do autor. Não sei quanto a vocês, mas, com certas leituras obrigatórias na escola de clássicos resumidos, quer dizer, versões reduzidas de obras clássicas como “Drácula”, “Alice no país das maravilhas”, entre outras, eu sempre senti uma certa aversão a essas obras resumidas e/ou facilitadas para o leitor. Eu me sinto, até hoje, privada de não ter lido certos clássicos completos. Vocês poderiam argumentar que eu poderia ter feito isso depois de ter saído da escola, mas confesso que essas versões adaptadas tiraram muito da minha vontade de ler os originais, quebraram o encanto, por assim dizer. Eu até li Drácula, depois de ter lido a versão adaptada e facilitada da obra, mas foi uma exceção.

Então, mesmo tendo lido o conto original, “O fantasma de Canterville”, eu li essa GN e fiquei bem feliz por terem mantido o texto integral.

Agora, à história em si. Esse não é apenas um conto sobre um fantasma. Na verdade, há críticas, como em praticamente todas as obras do autor, à sociedade, tanto inglesa quanto americana, especialmente a última nesse livro. O confronto entre o Velho e o Novo Mundo também.

Mas “O fantasma de Canterville” é uma história mágica, e revelar muito da história pode estragar as surpresas. Apesar do tom de comédia da história, em que o fantasma tenta assombrar a família que foi morar na mansão dos Canterville, o final é belíssimo, justamente marcado pela citação no início dessa mini-resenha. E as mensagens de amor, piedade, entre outras, estão ali para tornar o conto um dos mais belos do autor, na minha opinião, o segundo, depois de “O rouxinol e a rosa”.

Como na HQ indicada acima, também há notas de rodapé nessa edição, para situar o leitor, especialmente nos casos de trocadilhos do ogirinal.

Então, eu indico essa leitura para vocês ― só não dou nota 5 porque, apesar de o traço ser legal, achei que poderia ser um pouco mais pomposo, pela história que é, como no estilo das ilustrações de P. Craig Russel , por exemplo. Tirando isso, a GN é quase perfeita em sua adaptação, e temos ainda informações extras sobre Oscar Wilde e seu tempo, e sua estética, para quem não é tão familiarizado assim nem com a época nem com o estilo do autor.

3. As aventuras de Calvin & Haroldo ― Felino selvagem psicopata e homicida ― Bill Waterson

Eu realmente preciso resenhar alguma HQ de Calvin e Haroldo?

A resposta é sim. Porque não posso presumir que todos conheçam essa maravilha e, afinal, o objetivo de uma resenha é mostrar aos leitores em potencial novas possibilidades de leitura, não?

Então, vou discorrer brevemente sobre essa HQ específica.

A primeira das inúmeras vezes em que li(e reli) essa HQ foi em 1995, um ano depois de ter sido lançada no Brasil pela primeira vez. Foi a primeira HQ de Calvin e Haroldo que eu li, na verdade.

Um garoto de seis anos e seu tigre de pelúcia não só se divertem e aprontam todas nessa HQ, que indico tanto para quem já conhece os personagens e suas HQs quanto para leitores novos, já que são stand-alone e podem ser lidas fora de ordem sem problema algum.

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Em meio às peripécias do menino e de seu tigre de pelúcia, temos várias reflexões que continuam atualíssimas ainda hoje! É incrível, mas posso dizer que Calvin e Haroldo é atemporal. Notem a filosofia nos trechos citados abaixo. Além disso, há tirinhas puramente divertidas também. Esse misto de diversão e reflexão é incrível. E, cá entre nós, não sei vocês, leitores, mas os documentários sobre animais que vi na infância/adolescência sempre fizeram com que eu desejasse um tigre ― e, de certa forma, toda vez que leio e releio algo de Calvin e Haroldo, isso me remonta a essas épocas da minha, com a maior nostalgia, e me delicia sempre.

Nota? 5 bolas de neve! {Descubram o porque das bolas de neve lendo a HQ}

Curtiram? Em breve teremos mais indicações de quadrinhos para vocês.

Calvin: Como funcionam os caixas eletrônicos?

Pai do Calvin: Bom, digamos que você queira sacar 25 dólares… você digita a quantia…

… e o cara que opera a impressora dentro da máquina fabrica o dinheiro e entrega a você.

Calvin: Que nem o cara que mora na nossa garagem e abre o portão pro carro?

Pai do Calvin: Isso mesmo.

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Calvin: Pai, por acaso você anda depositando todas as usas expectativas em mim na esperança de que meu sucesso dê algum sentido à sua vida medíocre e que de alguma forma compense as oportunidades que você desperdiçou?

Pai do Calvin: Se fosse esse o caso, pode apostar que eu estaria reavaliando minha estratégia.

Calvin: Manhê, o papai me insultou de novo.

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Não só essa arte abaixo, mas nesse site aqui, vocês podem encontrar várias releituras legais de Calvin e Haroldo ;)

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Haroldo: Na verdade, acho que os felinos selvagens são tidos em mais alta conta, uma criança em público só causa constrangimento, enquanto um tigre acrescenta classe e exotismo a qualquer vento social.

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Calvin: Eu gosto de verbar palavras.

Haroldo: Quê?

Calvin: Eu pego substantivos e adjetivos e os transformo e verbos. Lembra quando acesso era só uma coisa? Agora a gente fala eu acesso. A palavra foi verbada.

Verbar esquisita a língua.

Haroldo: Quem sabe no fim das contas a gente não consegue transformar a linguagem em uma barreira intransponível para a comunicação?

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Calvin: Manhê! Acorda! Vem aqui rápido!

Mãe do Calvin: Que foi que aconteceu?

Calvin: Você acredita que o amor é uma simples reação bioquímica com o objetivo de passar adiante nossos genes?

Mãe do Calvin: O que quer que seja, é o que está me impedindo de matar você nesse momento.

Calvin: As coisas que a mamãe fala pra me acalmar à noite nunca são muito reconfortantes.

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indicacoes_quadrinhos_6Releitura do mesmo site mencionado na fanart de Back to the Future ^^

Haroldo: O que você está fazendo?

Calvin: Enriquecendo.

Haroldo: É mesmo?

Calvin: É! Tô escrevendo um livro de autoajuda! Existe um mercado enorme pra essas coisas.

Primeiro a gente convence as pessoas de que tem alguma coisa errada com elas. O que é bem fácil, porque o mercado publicitário já condicionou as pessoas a se sentirem desconfortáveis com seu peso, sex appeal e por aí vai.

Depois é só convencê-las de que esse problema não é culpa delas, de que elas são vítimas de forças maiores, o que é bem fácil, porque as pessoas já acreditam nisso, no fim das contas. Ninguém gosta de ser responsabilizado pela própria situação.

Aí é só convencê-las de que, com o seu aconselhamento profissional, elas podem superar qualquer problema e ser felizes!

Haroldo: Muito bem, e que problema você vai ajudar a resolver?

Calvin: Essa mania de ler livros de autoajuda!

O meu livro vai se chamar: Cale a boca e pare de reclamar: como fazer alguma coisa da vida além de só pensar em si mesmo.

Haroldo: Acho melhor você esperar o pagamento dos royalties antes de começar a gastar…

Calvin: O problema é que… se meu método funcionar, eu não vou poder escrever uma continuação.

 

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Written by Ana Death

Ana Death

You either die a hero or live long enough to see yourself become the villain.

  • http://twitter.com/vanwisnie Vanessa

    Not Quite Dead parece ser bom! :-) Fiquei interessada em ler “O fantasma de Canterville”, a GN ou o conto mesmo, porque até hoje só li do mesmo autor “O retrato de Dorian Gray” (e só uma versão resumida! :-/). Calvin e Haroldo é muito <3!

    • http://twitter.com/anadeathduarte ツ Ana Death Duarte ツ

      Como conseguiram resumir O fantasma de Canterville que é um conto tão curto? O.o

  • thanny

    Gostei bastante da primeira indicação. E preciso ler Calvin & Haroldo!! Mas lenho que ler as HQs que comprei primeiro rs

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  • http://www.facebook.com/people/Adilson-Oliveira/100002553248199 Adilson Oliveira

    Boas indicações! As transcrições de algumas tiras do Calvin e Haroldo são bem legais e pontuam o que você escreveu sobre a sua contemporaneidade magnificamente. Já li vários volumes dessa coleção e não me canso. Duro é comprovar que o Calvin, com questões assustadoramente existencialistas para a sua idade, está mais próximo da realidade do que eu pensava. Afinal, eu tenho um filhote de 6 anos que me surpreende todos os dias. E também é duro admitir a proximidade com a figura daquele pai bobão com as suas explicações rocambolescas que fazem troça da ingenuidade do filho sobre o funcionamento do mundo.

  • http://www.facebook.com/jefferson.ruffus Jefferson Luiz Gonçalves Silva

    Calvin e Haroldo é sempre bem vindo. Leio, releio e o tempo simplesmente voa. Gostei dessa coluna.